No dos outros é refresco…

O preconceito e a segregação vão demorar muito para acabar. Apesar de todas as campanhas, leis, fianças, protestos e ameaças, a cada dia surge uma novidade. O mudo está cheio dessas armadilhas que o fazem menor.
Por exemplo:
Em restaurantes de beira de estrada é comum o aviso “Pedimos aos homens não entrar sem camisa”. A mulher, se quiser, pode entrar? Mas sem camisa, claro!
Com todo respeito, na Liga das Senhoras Católicas entram senhoras protestantes? E senhores ateus?
No Clube do Bolinha não entra menina, nem na Maçonaria entra mulher. As feministas não reclamam diante dessa discriminação? Ela nunca deu bode?
Antigamente, mulher sem véu na igreja, nem pensar. As antigas paroquianas da igreja de Santo Antônio, ali no bairro do Botafogo, que o digam. Monsenhor Jerônimo Bagio armava o maior salseiro. Mas ai do homem que entrasse de cabeça coberta. E mulher de chapéu podia… Vai entender.
No começo, a gerência do cine Windsor exigia camisa social, aquelas de mangas compridas. Um amigo barrado na porta – não foi o Lineu (Treco) Pires Véspoli – voltou pra casa, vestiu a camisa social do pai e entrou. Estava de bermudas! E o porteiro nem tchum…
Na Inglaterra, será inaugurado um condomínio todo sofisticado. Crianças não podem entrar nem viver ali. Mas cachorros de madame podem.
Falar nisso, aqui em Campinas, Toy, um poodle, está para ser despejado do condomínio onde mora com a família (dos donos, não a dele). A Justiça (dos homens, não a dos cães) decidiu que ele fica, mas a dos demais moradores…
O Exército não aceita recruta de cabelos compridos. Para se garantir, um amigo, o Jamelão, rapou a cabeça. Resultado: três dias em “cana”. Argumento do tenente Jitahy, do extinto 5º G-Can: “Cabelos compridos, não; careca, também não”.
No vagão-restaurante do trem de luxo da gloriosa Companhia Paulista de Estradas de Ferro, homens, só de paletó e gravata, enquanto as senhoras, apenas de saia ou vestido. “Mas eu não vou almoçar, só tomar um lanche…”. Deixaram passar.
No Fórum, até bem pouco tempo, não era permitida a entrada de mulheres, mesmo as advogadas, com calças compridas. “Meritíssimo, sem calças elas podem entrar?” Quase fui preso.
A diretora proibiu alunos com brincos. “A partir de amanhã eu venho de calcinha, em vez de cueca, quero ver se ela me proíbe”, disse um rebelde sem calça, digo, sem causa, só para azucrinar a coitada.
Agora, a Unicamp abre um cursinho vestibular para negros. A “tchurma” dos direitos humanos não vai chiar? E se a Unicamp abrisse um cursinho só para brancos? Também não? Parece que a história não é bem assim. O cursinho é para negros e carentes. Mas deveria ser só para negros, sim. Pelo menos por uns meses, só para que brancos racistas sentissem na pele o que ainda se comete contra os negros nesta “democracia racial, me engana que eu gosto”.
Pregado no poste: “Política, sinônimo de hipocrisia”

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