No dos outros, é refresco

Júlio de Mesquita Neto, inesquecível comandante do nosso Estadão, num sorriso raro, costumava referir-se ao legendário prefeito de Campinas Ruy Novaes: “A gente é amigo de mijar junto, Castro. Esse foi o melhor prefeito da história da sua cidade e um dos melhores do Brasil!”. De fato.

Não sei porque, dia desses, Ruy Novaes me veio à lembrança. Nada, nada, a Campinas moderna foi ele quem inventou. Tirou a cidade da encruzilhada; trouxe de uma vez a Bendix, a Bosch, a General Eletric e a Clark Equipment; foi o primeiro a falar em pólo de alta tecnologia no Brasil e deu a esta terra tal dimensão que, na hora de criar a nova universidade estadual, as autoridades não tinham alternativa melhor no Estado: Campinas.

Ele nos deixou não faz muito. Mas havia mais de trinta anos, longe da politicalha, trabalhava como empresário do agronegócio na região de Rio Preto. Implantou uma experiência que revolucionou a técnica do cultivo de seringueiras e a produção de látex. Conheci seu trabalho. Coisa de quem sabe o que quer e o que faz. E consegue. Nunca perdeu aquele brilho no olhar que Deus dá aos grandes.

Quando estive com ele, em meio àqueles seringais, era 1985 e o tal de Zé Sarney (Deus me livre!) falava em criar o Plano Nacional de Reforma Agrária. Como esse assunto no Brasil sempre foi usurpado por um bando de gente dividida em duas categorias, os ignorantes e os aproveitadores, nunca deu certo. Os competentes sempre são minoria.

Comentando a reforma do Sarney (esse indivíduo foi presidente da República e é da Academia Brasileira de Letras!), Ruy contou-me a história de um amigo dele, também produtor rural, que mandara a filha e o genro estudar no exterior novas técnicas de produção agropecuária. Parece que o casal passou um tempão lá. Vamos deixar o Ruy contar:

— Olha, Castro, esse negócio de reforma agrária, eu vou lhe contar como é. Meu amigo gastou um dinheirão com a filha e o genro estudando lá fora. Quando voltaram, meu amigo foi buscá-los no aeroporto. Se bem me lembro, lá em São Paulo, logo que inaugurou Cumbica. E a filha, já no carro, voltando para casa, quis saber como andavam as coisas lá na fazenda. Meu amigo, com a maior naturalidade, disse: ‘Fazenda? Uai! Eu dei para o governo fazer reforma agrária. Entreguei tudo na mão daquele amigo de vocês, o Zé Gomes, presidente do Incra. Não é assim que vocês dizem que tem de ser? Dividir tudo? Então. Já fui fazendo…’ O genro gelou, a filha estourou: ‘Ficou louco, pai? Como? Fazer reforma agrária na nossa fazenda? E agora?’ Aquele meu amigo segurou a gargalhada até chegar em casa.

Pregado no poste: “E aí, Lula. Já tomou seu Toddy hoje?”

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