Neusa, de Paris

Muita gente, como eu, só vai acreditar em milagre de verdade, perpetrado nesses templos caça-níqueis, quando um pobre aleijado entrar sem as pernas e, milagre!, sair correndo, pulando… A exploração do lenocínio religioso por gigolôs da fé engana as vítimas, jurando que é só pagar, “para o bem do Senhor Jesus”, que a cura vem. Claro: “bem do Senhor Jesus” quer dizer “para os bens” dos donos da arapuca — e os males dos fiéis.

Aí em Campinas, mesmo, perto de casa, havia uma espelunca até que divertida. Os falsos doentes paravam na casa de um amigo meu para o pai dele, exímio marceneiro, dar um aperto das muletas que seriam usadas logo mais nas sessões milagreiras. Tudo na maior cara de pau. Até que numa noite, apareceu lá na frente, no “púlpito”, um gordinho baixinho. Chorando, ele clamou para o pastor de araque: ”Eu não agüento mais, irmão! Me acuda, irmão!”. O tal irmão, apavorado com a presença daquele ‘doente’ que não havia combinado ir até a frente exibir sua ‘doença’, tentou agir com naturalidade: “Qual é o mal que perturba você, irmão? Fale para nós. Mostre sua doença, para receber a ‘bença…’” O gordinho não estava fingindo. E já que era para mostrar a doença, foi rápido e escancarou o mal que o afligia – uma tremenda hemorróida. Nunca mais vi aquela “igreja” aberta. Mas já pensou que vexame?

Semana passada, aqui em Ribeirão Preto, deu-se uma bela história. que desmascara essa exploração. O final feliz foi no asilo Padre Euclides — nem sei onde fica, mas deu nos jornais. Há sete anos, chegou ali para se internar um certo senhor Paris. Tinha 64 anos, uma depressão profunda e uma cadeira de rodas. Sempre calado. Mas há dois anos, também chegou ali a Neusa, 71 anos, expansiva, comunicativa, alegre que só vendo. Também internada, passava o dia contando histórias para os demais idosos. Aos poucos, naturalmente, Paris e Neusa foram se aproximando. Ele voltou a conversar, até a sorrir. E ela, distribuindo alegrias.

O otimismo e a fé contagiante da Neusa tiraram Paris da cadeira de rodas. Ele começou a circular pelo asilo com a ajuda de um andador. Logo, só uma bengala bastou. Há umas duas semanas, justamente na véspera do Dia do Casal,  Neusa e Paris se casaram. Nenhum deles pagou nada a ninguém para ser feliz.

Pregado no poste: “Não é melhor celebrar o Dia da Consciência Limpa?”

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