Nem quero ver

Escrevo esta crônica autorizado pela doutora Fabiana Bonilha, um dos maiores orgulhos da história de Campinas. Se (ainda) não a conhece, receba a benção que está perdendo no link ‘e-braille’, aqui na página do Cosmo. Quem me contou estes causos de dois cegos de Campinas foi o Vicentão Torquato. Contei tudo para a Fabiana e rimos muito. Então…

Vicentão, generoso como ele só, pegou dois cegos para cuidar. Ambos já estiveram bem na vida, até que perderam a visão. O primeiro, aqui denominado Julieto, ele colocou para lavar copos e pratos no bar que ele tinha ali na Avenida Aquidabã: o “Bom Petisco”. O outro, Clemente, veja você!, foi incumbido de vigiar os carros deixados pela freguesia nas imediações. Argumento do Vicentão: “Os ladrões não sabem que ele é cego e para os fregueses, ele disfarça: ‘Pode ficar tranquilo, doutor’”. Brasileiro se vira.

Um dia, essa peça, que vive na terra da gente, chegou ao “Bom Petisco” e foi recebido com resmungo por Julieto: “Ô Vicentão, que sabão é esse que não faz espuma, pô!”. Também, ele lavava os copos com farofa… Julieto quis aprender a desossar frango. Assim como o professor pega na mão da criança para ensiná-la a escrever, Vicentão pegava na mão do seu aprendiz, para ele não se cortar. E deu uma faca ruinzinha, ruinzinha. Julieto reclamou: “De cego, aqui chega eu!” Aprendeu e desossar um frango como ninguém – melhor do que os cachorros daquele goleiro. Vicentão pegava na mão para ensinar Julieto a cortar frango, mas quando Clemente mandou nosso herói parar a camionete, para fazer xixi, ele o mandou se virar… Sacanagem: embaixo de um viaduto. (Não se incomode, porque ninguém fica bravo com as brincadeiras do Vicentão.)

Ele bem que avisou. Julieto era bonitão, alto, cabelos grisalhos, olhos azuis e locutor de rádio FM. Ícone das moçoilas solteiras, casadas ou casadoiras. Uma noite, aceitou o convite de uma beldade e lá se foram para o apartamento dela “na Avenida Orosimbo Maia”, diz Vicentão. E continua: “Quando eles estavam bem à vontade, ela cochicha, horrorizada: ‘Ih! Meu marido!!!’. E foi um tal de: ‘Qui que eu faço! Cadê minhas calças! Ai Jesus! Pega minha cueca!’”

Quem quiser saber como Julieto se livrou dessa, ligue pro Vicentão, porque eu não posso contar aqui. Há senhoras e senhoritas presentes.

Pregado no poste: “O que os cegos querem ver é o Vicentão no Terra da Gente!”

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