Nem monstro

Positivamente, já não fazem monstros nem fantasmas como antigamente.
Depois do “Nessie”, que os escoceses juravam existir no Lago Ness, nada de bom apareceu. Perderam o charme e o poder de seduzir ou assustar. Há pouco mais de cem anos, nosso maestro Carlos Gomes reapareceu em plena nave da Catedral, acompanhando sua missa — essa sim! — de corpo presente. Para quem duvida, uma fotografia, publicada há algum tempo na Revista do Correio, mostra a presença do nosso Tonico na própria missa. Ele foi sepultado provisoriamente no túmulo da família Ferreira Penteado, na Saudade, mas consta que alguns não gostaram. O jornalista Júlio Mariano contava que houve até um tropel de “Ferreiras Penteados” sepultados correndo atrás do maestro pela Barão de Jaguara.
Campinas também tinha o “homem do saco”, que assustava crianças enjoadas para comer. Invenção dos pais, batata! E o “ligeira”? Era assim que campineiros chamavam os fantasmas de mendigos. Quem explica? Você já viu mendigo andar ligeiro? Pra quê?
Júlio falava também de uma mulher que quase todo fim de tarde tomava o bonde ‘11’, do cemitério, e antes de descer, lá no fim da linha, se despedia: “Agora, vou pra casa”. E sumia. Em pânico, motorneiro, cobrador e passageiros imploravam um toalete a bordo do bonde…
Em São Paulo, os fantasmas mais recentes eram duas loiras. A primeira, aparecia nas madrugadas na estação Paraíso, apavorando o condutor do último trem do metrô que catava o lixo das plataformas. Dizem que era uma mulher que teve a casa desapropriada para a construção da linha e não foi paga. A outra loira assustava o pessoal da faxina do prédio Martinelli. Nenhuma firma de limpeza queria pegar o serviço ali.
A última lenda que resiste e entrou para o nosso folclore é a do “boi falô”, em Barão Geraldo. Depois, decadência: “Bebê-diabo”, “Monstro da Billings” (espécie de “Nessie” caipira) e, “Chupa-cabra”. A cidade está tão por baixo, que até esse fantasma subdesenvolvido assustou por aqui. E avacalhou: apareceu na forma de um ratão do banhado, nocivo, nojento, transmissor de doenças. E como cada povo tem os fantasmas que merece, querem cadeia para o homem que fez a profilaxia do tal ratão. Lá vai Campinas, descendo a ladeira.
Pregado no poste: “Já matou um rato hoje? Cuidado!”

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