Nem eles

Uma vez, na cidade de Bastos, perguntei a um criador de galinhas se ele come frango. Não importa o nome desse avicultor, porque em Bastos todos criam galinhas. Ele me disse que não. Perguntei, então, se ele ao menos come ovo. Disse que também não. Aqui em Sertãozinho, um usineiro me garantiu que só toma café com adoçante. Não usa nem o açúcar que ele mesmo produz. Depois, afirmou que estava brincando. Em Moji das Cruzes, lá no “cinturão verde” da Grande São Paulo, um japonês sorriu, quando eu quis saber se ele come tomates. Tomates de sua própria horta. Também não vem ao caso quem é esse japonês, porque por ali todos são horticultores e quase todos são japoneses. Ou descendentes de japoneses.

Arlindo Augusto Rodrigues, legendário cafeicultor da cidade de Lutécia (existe, sim, fica perto de Paraguaçu Paulista) não tomava café. Desse cafeicultor eu digo o nome, porque ele era o único produtor de café de Lutécia (Perdão, Paris!) e todos o conheceram. Grande amigo do Roberto Godoy, avô dos meus filhos e, claro, pai daquela santa que mora aqui em casa… Doutor Alcides Carvalho, maior gênio das ciências do café que o mundo conheceu, também não aceitava nem uma “xicrinha”. Em Campinas, mesmo, o diretor de um grande laticínio, já extinto, me confessou que não tinha coragem de comer o queijo, a manteiga, o iogurte nem beber do leite que sua empresa beneficiava. Conheço um agricultor que planta melancia e não passa nem perto da lavoura. Levar pra casa? Nem pensar!

Para aumentar o mistério, me ocorre agora que nunca vi chinês comendo pastel atrás do balcão… Ih! Será que o dono do Giovanetti toma chope? O dono da Sadia come hambúrguer? E o do Bar da Lingüiça, será que aceita um sanduíche da dita cuja? Pipoqueiro come pipoca? Você já viu açougueiro em churrasco? Pizzaiolo come pizza? Filho de político estuda em escola pública? Traficante cheira? Cheira. (O Brasil é o único lugar do mundo onde traficante cheira, bandido é a favor da pena de morte, bicheiro joga e prostituta goza.).

Não conheço a razão de todos para refugar seus próprios produtos, mas o criador de galinhas de Bastos e o verdureiro de Moji foram sinceros. Um desconfia dos antibióticos que é obrigado a aplicar nas “penosas” e o outro, dos venenos com que pulveriza a horta.

Lembrei disso tudo, quando li a carta da leitora Sandra Andréa Cruz, publicada aqui no Correio Popular, dia 23, indignada com o preço dos ingressos do show do Chico Buarque de Hollanda, na Red Eventos. Aqui em Ribeirão, foi aplicado o mesmo golpe da meia entrada para tungar o povo. O repórter Dirceu Martins, da EPTV, perguntou ao próprio idealista Chico Buarque se ele sabia do preço abusivo.

Sabe o que o Chico respondeu, Sandra? “Eu também não pagaria R$ 80,00 para ver esse show!”.

Pregado no poste: “Chame o ladrão: PMs agridem e roubam fotógrafos”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *