Não vá ter um treco

Não sei quem falou que se alguém morto há meio século ressuscitasse de repente, morreria de novo com o choque de modernidade. Duvido. Talvez chocado com os fatos, usos e costumes, mas com o cenário, não. Imagine o homem parado na frente da Constanze esperando passar o bonde. Ou chegando ao Largo do Rosário para a missa e não encontrar a igreja.

Se ele ressuscitar ali pelas seis da manhã, não adiantará fuçar no rádio atrás da Alvorada Sertaneja, do Pedro Azevedo, na Educadora; do Bom Dia Campinas, com o Vitor Modesto Bonavila, na Brasil nem com o Geraldo Sussoline, na Cultura. Se esperar a Hora do Trabalhador, chegará tarde ao serviço, porque não há mais Lombardi Neto nem Vladimir Matiazzo apresentando, muito menos a Educadora PRC-9, onde apregoavam “Uma hora de alegria pra quem sua todo dia”. Ou “soa”? Ora, por quem sois!? Conte pra ele, bem ‘devagrinho’, que a litorina das 6h28 pra São Paulo também acabou e levou todos os trens embora.

Se for um campineiro autêntico, orgulhoso, ou aquele machista e enfurecido com a fama da cidade (já existia, sim, vem do tempo do Império), queria ver sua cara quando desse com um grupo de rapazes de rabo-de-cavalo, brinquinhos, alguns com sandálias havaianas. Pior: vestido assim, na missa da Catedral e de bermudas! “Meu Deus! E aquelas moças sem véu nem sutiã!?” Ainda bem que ele não viu homens se beijando nem mulheres idem.

De repente, o homem ressuscita às dez da noite na Treze de Maio com Zé Paulino. Se não for assaltado nem fuzilado já antes da reencarnação, ficará perdido na escuridão: “Mas aqui era um palco iluminado! Cadê as vitrinas? Parou a força? Cadê a rádio-patrulha que ficava ali atrás da Catedral? O que estão levando no Teatro? Cadê o Teatro? Foi bombardeado?”

Pode estar certo, nada disso o matará. Se ele subir a Zé Paulino em direção ao campo da Ponte, não verá mais o cineminha do Ivo nem o programa do dia no Bar do Vadico. É fatal: saberá que seu clube ainda está rebaixado à segunda divisão. Mas se for bugrino, descerá até o Brinco e verá uma placa no portão do estádio: “Vende-se”. Aí é morte certa.

Pregado no poste: “Eu não era assim! Esse povo maldito merece esse governo; eu é que não mereço esse povo!”

 

 

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