Não dá certo

O Correio de sábado passado veio com uma notícia interessante no caderno “Cidades”: “Cobra é achada dentro de carro em Campinas”. Pensei que tivesse me passado uma idéia de gênio pela cabeça. De fato, há uns vinte anos, um morador de um bairro da Zona Leste de São Paulo mantinha uma jibóia dentro do carro. Não havia ladrão com coragem de chegar perto. Um até foi atropelado, porque abriu a porta do Monza, deu de cara com a bicha, correu apavorado e foi lançado do outro lado da calçada por uma moto. “Mil vezes atropelado do que picado”, disse no pronto-socorro do Hospital do Tatuapé.

Não sei como, mas o dono do carro conseguiu domar a jibóia. Até deixava a janela aberta. Ela não saía de perto do volante, enrolada na barra da direção, enquanto ele estava fora. Quando ele voltava, três batidinhas na lataria e ela entrava numa caixa de madeira. Pensei que a solução estivesse ali. É só domar uma jibóia, que não é venenosa, e ladrão algum se arriscará. Principalmente na hora do susto, porque ninguém vai parar para ver se a dita cuja é das venenosas ou não. Cara a cara com uma cobra, você vai ver se o rabo termina de repente, se tem guiso, aquelas coisas? Duvido. Quem tem, tem medo e sai correndo.

Mas foi uma idéia de jerico. Procurei o mestre Carlos Laure, cientista da Faculdade de Medicina da USP, aqui em Ribeirão, e uma das maiores autoridades mundiais em ofídios peçonhentos e demais parentes. Exultei, quando ele disse que é possível domar cobras, e expus minha idéia. Falou duro comigo, em defesa de suas “amigas”: “Não faça isso, não. É uma desumanidade. Eu não recomendo. As coitadinhas (ele chama as cobras de coitadinhas!) não suportam ambiente de muito calor. Se esse carro ficar fechado e estacionado no sol, elas se desidratam e morrem. Tem mais: se alguém descobrir uma cobra enroscada no motor do carro, não mate. Empurre o carro até o sol. Para fugir do calor, elas saem. E mande a cobra pra mim porque, com o veneno delas, nós fazemos medicamentos.”.

Pregado no poste: “Sem professor nem cientista, não há vida.”

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