Nada mole vida

A mudança passou na camionete mais fuleira. “É de república”, adivinhou a campineira Alice Sabbatini, futura nutricionista em Ribeirão Preto, neta do seo Hélio, contador dos bons em Campinas. O cesto de vime, tão capenga, exibia a roupa suja. Levava uma geladeira velha, de porta amarrada com barbante; penteadeira sem espelho; fogão sem porta no forno, até guarda-comida tinha.

O resto da bagagem veio na lembrança de velhos e novos ‘republicanos’: a própria Alice, que vivia aqui, na “Repicante”; da dentista Regina Delabio, da “República da Luluzinha”, de Araçatuba; da arquiteta Juliana Rossetto, da “Sem nome”, de Londrina; do engenheiro Francisco Augusto Rodrigues, da “O oco do mundo”, de Lins – quem passava na porta, só ria lá adiante.

“O homem esteve na lua há quase quarent’anos, mudamos de século, mas o ambiente nas repúblicas continua igual, mas melhor do que no “Fomiséria” do Lulla.

Há varais na sala. A TV tem bombril na antena e o rádio, tão velho, pega estação que já fechou. Na decoração, placas de “Pare” e do “McDonald’s” e cones de sinalização emprestados nas estradas e nas ruas. Mesas e cadeiras de ferro com a marca da cerveja favorita no encosto. Cinzeiro é latinha de skol. Se há gente demais, colchões espalhados pelo chão servem de sofá e lençóis fingem cortinas na sacada. Na área de serviço, tanque é de pedra e carrinho de supermercado, churrasqueira.

No quarto, lista telefônica sustenta pé de cama; colchões rasgados; cama-patente; salompas tapa o rasgo da colchonete; travesseiro é toalha enrolada; lençol limpinho…; estante de tijolos para guardar apostilas; criado-mudo de caixote de alho (espanta barata); e estante de aço é guarda-roupa. No banheiro, latrina sem tampa; esparadrapo isola os fios do chuveiro; espelho com moldura de madeira alaranjada; tabuinha e arame seguram papel higiênico e tampinha de cerveja é grudada no sabonete — para economizar.

Na cozinha, cardápio variado: ovo, miojo, arroz com catch-up, salsicha com pomarola, bolacha, Nescau e, às vezes, banana e laranja. A tralha é de panela sem cabo, frigideira preta, copo de cristal Cica ou levado dos bares da vida. Pratos de papel? Mas talheres… alguns são do tempo da monarquia em certas repúblicas. Como diz o samba, coador de café, se não for guardanapo, é a meia da mulher amada.

Pregado no poste: “Esquerda e direita não fazem direito; nem humanos”

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