Na orelha

Lembranças de dona Rosmarie Afonso, ponte-pretana emérita, diante do envenenamento do povo pelo leite de caixinha:

“Quando me casei, o rolo de papel higiênico nem cabia na caixinha de louça, aquela que fica na parede, ao lado do vaso. Hoje, sobra caixinha para o rolo dançar à vontade. Havia também um produto de limpeza, que bastava uma tampinha dele para dissolver no balde com água. Hoje, basta um balde com o produto, para dissolver numa tampinha com água…”

“Arrocharam o provento dos aposentados, só para estimular esses empréstimos consignados, que dão dinheiro a juro para o governo. O primeiro banco que se aproveitou foi aquele, envolvido no escândalo do mensalão. Essa prática eles plagiaram (roubaram)  do enredo do filme ‘O Garoto’, do Charlie Chaplin. O menino ia à frente, quebrando as vidraças, e o vidraceiro, atrás, oferecendo o conserto. Nem para roubar eles são originais. É como o borracheiro desonesto, que joga pregos na rua para furar os pneus dos carros. Sem sair de casa, eu previ essa mutreta.”

“Na ditadura, um funcionário dos Correios foi remanejado para o quartel da brigada. Ele morava no edifício Três Rios, perto da estátua do maestro. Vivia com dificuldade e mal tinha para alimentar o filho pequeno (que nem Cuba hoje). Foi a uma padaria e o dono cobrou os olhos da cara por uma lata de leite em pó. Fazer o quê? Pagou. Contou a história no quartel. No dia seguinte, o dono da padaria, moralmente espancado, devolveu o dinheiro à sua vítima.”

(Eu me lembro dessa história!)

“Na escola de comércio do Senac, ali na Ferreira Penteado, perto da Casa de Portugal, tive um professor queridíssimo, o Telêmaco Paioli Melges, também diretor do ‘Culto à Ciência’. Ele entrou rindo na sala, abraçando as folhas de papel almaço com as provas de História, e disse: ‘Perguntei qual foi a maior batalha naval da história do Brasil e ninguém acertou. Enquanto vocês faziam a prova, por coincidência, passava um carro de som fazendo propaganda das Lojas Riachuelo, mas ninguém se lembrou da batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai…’”

Rosmarie arremata, saudosa: “Graças a Deus, aprendi com quem prestava; hoje, são muitos de sovaco ilustrado por livros nunca abertos – nem lidos.” Por causa de torcedoras assim, a Ponte não acaba.

O pregado no poste é dela: “Democracia é feito religião; fácil de pregar duro de praticar”

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