Mulher objeto

Por trás de todo homem de sucesso há uma mulher. Por trás de toda mulher de sucesso existe uma empregada doméstica?
Enquanto muitas mulheres batalham fora de casa, é ela quem lava e passa a roupa; arruma a cozinha; limpa o chão; lava o banheiro – até privada e bidê; encera; tira o pó; dá banho no cachorro – às vezes nas crianças; vai ao supermercado; assa, cozinha e frita; almoça e janta depois de todos — nem sempre o que todos comeram; finge que não percebe os olhares marotos do marido da patroa; se é negra, até ri das piadas de mau gosto que “escapam” nas conversas da casa – mas esconde a dor; faz que não ouve as ofensas dos filhos do patrão; engraxa e lustra os sapatos de todos; leva e busca as crianças na escola – algumas ajudam os pirralhos a fazer a lição de casa; canta para alegrar o ambiente e diminui o volume do rádio bem na hora de tocar a música preferida.
A situação, parece, melhorou um pouquinho. Têm direito a registro em carteira, férias, trêzimo, descanso semanal… Ou seja, já são consideradas gente. Demorou, mas perceberam que elas são gente. Obra de algum político cuja mulher ficou sem empregada por um dia. Mas tempos atrás, na Segunda Guerra, por exemplo, veja o que um cronista do extinto Correio Paulistano escreveu sobre elas:
“Além da gasolina, do carvão, da carne e do açúcar, há em São Paulo escassez quase absoluta de ‘empregadas domésticas’. Devido a atração que a rua exerce sobre as empregadas, as senhoras, quando se encontram, já não falam de cabeleireiro ou modista, das cerimônias da paróquia, se beatas, ou da coqueluche dos filhos, se matronas; queixam-se das empregadas. Antes era a patroa que despedia, agora, a empregada vai, criando um ‘nomadismo’ de não parar no emprego. (As patroas) são mulheres admiráveis e quase dignas da coroa do martírio, aquelas que ainda podem, vencendo a arrogância de suas empregadas, apresentar à noite um jantar apetecível. Aquilo que até há pouco se contava como anedota – uma criada que queria o direito de estudar no piano da patroa – é hoje realidade. Exigem tudo: patrões sem filhos, um dia de descanso por semana, saída todas as noites, quarto encerrado com veneziana, rádio à cabeceira etc..”
A história está num livro imperdível: “Guerra sem guerra – o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra”, de Roney Cytrynowicz”.
Pregado no poste: “A turma dos direitos humanos não vai protestar contra o assassinato do Adelino do Quintalão?”

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