Muito barulho por nada

Ouvi uma gritaria de jovens vibrando, após um apito. E logo, o grito de gol desapareceu com o alarido. Não é possível! Será que esse barulho, marcante, ainda é ouvido aí no bairro do Botafogo? Ensurdecedor. À noite, então, o som dessa alegria chegava ao Centro de Saúde, ali na esquina da Zé Paulino com Orosimbo Maia. Eram as torcidas que lotavam o Ginásio de Esportes “Professor Alberto Krum”, no Colégio “Culto à Ciência”, para ver jogos de basquete e de futebol de salão. O apito, forte e seco, era do mestre Renato Righetto; longo, às vezes lânguido, do Giardini.

(Com licença, um pouquinho: vendo esses jogos da NBA, cercados de tanta parafernália eletrônica, falo pra mim mesmo: “No tempo do Renato não precisava nada disso. Ele era mais preciso do que todas essas máquinas juntas. Será que recorreram às máquinas porque o Renato parou de apitar? Grande mestre, melhor juiz de basquete da história do mundo!”).

Daquele mesmo lugar, até durante o dia, ouviam-se os relógios da Catedral e da Igreja do Carmo, regendo o tempo da cidade. No Carmo, havia um em cada torre e uma diferença de um minuto entre eles. Assim, cada hora era ouvida três vezes. As seis da tarde, ficava bonito: às badaladas, se misturava a sirene do Correio, acionada pelo “seu” Danilo, anunciando o fim da jornada de trabalho.

O Renato Otranto me lembra, agora, do relógio da Igreja de Santo Antônio. Fala Renato: “Na sacristia do padre Adriano, tinha um reloginho-comando; quando chegava a hora, um martelinho batia automaticamente num gonguinho ligado a um amplificador que levava o som ao alto-falante da torre. Dava para ouvir até no campo da Ponte”. Meio complicado, não?

De longe, os campineiros ouviam o chefe da estação da Paulista apitar a saída da Litorina das 6h28 para São Paulo; as manobras dos trens da Mojiana, atrás do estádio; a buzina de borracha da carroça do “seu” Armando, o verdureiro, e de Nico, o padeiro, que vinha de Lambretta; a fanfarra só de meninas do Colégio “Coração de Jesus”; a “orquestra” dos amoladores de faca e dos folheiros soldadores de panelas, bacias, até penicos; as matracas dos vendedores de biju; o realejo do Alfredo.

Às vezes, ouviam-se os sinos do Cemitério da Saudade, chorando um campineiro que partia para ficar na alma da cidade.

Quem morava perto do Bosque acordava nas noites de lua cheia com os rugidos do Nero. Por toda a Campinas, os barulhos do bonde eram inconfundíveis: do ronco do motor ao “din-din” do condutor. “Se o bombeiro saísse do quartel com a sirene ligada, a cidade inteira corria atrás”, lembra o Renato. “Curiosidade? Não, acho que solidariedade”. É… Naquele tempo, havia esse sentimento.

Hoje, nem se ouve mais o bombeiro. Tanto barulho na cidade, que fica tudo igual. E os barulhos de nossas vidas vão sumindo, sumindo… Meu bairro acordava às sete da manhã com dois sons inesquecíveis. O apito da fábrica do Cury, que punha Pavuna, Tijolo e Piolim para correr, se não, perdiam a hora. E a sirene da fábrica de elásticos do doutor Sylvino de Godoy — já vinha com sabor de café com leite, pão e manteiga.

Ouvindo esse tempo, eram todos sons agradáveis, cada um com seu timbre peculiar. Hoje, os sons são agourentos, não chegam à alma, não anunciam nada de bom. Ou é “gostoso” ouvir alarme de carro, sirene da polícia, rajada de metralhadora e latido de cães de guarda enfurecidos?

Os primeiros deixaram boas lembranças, mas a lembrança dos de hoje será sempre aterradora.

 

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