Mudança de tempo

Imagine: antigamente, não muito antigamente, referir-se a uma mulher como casta era elogio. Hoje, algumas, talvez muitas, se ofendem. Comecei a prestar mais atenção na leitura de jornais – tem de ser pelo menos uns dez por dia, se tanto – e percebi outra mudança do tempo e não foi na página de meteorologia. Dançar de rosto colado é notícia, com direito a fotografia! Flagraram a cantora Marina Lima e um ator de nome Juan Alba dançando de rosto colado, no lançamento de u’a marca de telefone. O retrato saiu na primeira página! Em dúvida, conversei com o editor e ele me jurou que o destaque se deveu ao rosto colado e nada mais. (“Está insinuando o quê?”, acrescentou, com riso maroto.).

Na missa, meninas de shortinho e marmanjos de bermudas já desfilam na fila da comunhão. (Quem conheceu monsenhor Jerônimo Baggio, a ponto de saber até aonde ele ia a bordo daquele seu Prefect preto, como o Geraldo Trinca, sabe o que ele faria diante dessa cena… Sem véu, a moçoila já seria escrachada do púlpito como devassa, impura e bela.)

A veneranda jornalista poliglota e amiga Cecília Thompson (chamá-la de casta seria um crime contra a castidade) sabe o que significa resguardar a castidade. Diz ela a todos que só baixou a guarda, depois de se casar com o magistral Gianfraceso Guarnieri. É que míster Thompson não permitia a entrada de discos longplay nos bailinhos d’antanho. Conta Ciça: “Os 78 rotações, só uma música de cada lado, não deixavam o calor e o ímpeto mergulhar abaixo do umbigo. E a cada meia dúzia de discos, era preciso trocar a agulha da vitrola – tarefa reservada aos pais, para esfriar ainda mais o tal calor e o ímpeto.”

Sou testemunha e fiel depositário dessa relíquia que garantia a virgindade e a boa conduta dos jovens de ontem. Ao mudar-se de uma casa para um apartamento, a Cecília nos deu a maravilhosa coleção de discos 78 de mister Thompson. Por isso, enquanto a juventude usa “aparelho de som”, conservamos uma vitrola com um estoque de agulhas só para ouvirmos as testemunhas auditivas da história. Com uma vantagem: quando uma determinada melodia cansa, podemos virar o disco. Afinal, quem pode, ainda hoje, dizer diante de um chato: “Vire o disco!”

Pregado no poste: “Castas hoje, só na Índia…”

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