Miss Campeonato

Nunca a Ponte Preta esteve tão dignamente representada na televisão como por um carioca de nome Dorival Silva e apelido Chocolate, que há meio século representava a “Macaca” num programa de televisão imperdível, o “Miss Campeonato”. Humor de primeira, popular e inteligente, sem apelação alguma, embora o alvo das torcidas e de seus representantes no elenco fosse uma das mais cobiçadas vedetes do Brasil de antanho, a Rose Rondelli. Morreu semana passada, no Rio de Janeiro, a eterna “Miss Campeonato”, depois de brilhar nos cinemas e nos palcos dos teatros de revista, viver com o humorista Chico Anysio e dar a ele dois filhos, Anysio (o Nizo Neto) e Ricardo.

O programa fôra criado para o rádio, pelo incomparável Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, (veja a coincidência!) e levado na Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro.

“Miss Campeonato” ia ao ar nas noites de segunda-feira, claro, depois da rodada de fim-de-semana do Campeonato Paulista, entre 1957 e 1960. A televisão engatinhava, e a extinta TV Paulista Canal 5, hoje dona Globo, ‘pegava’ muito mal fora de São Paulo, mas em Campinas, às vezes, ‘entrava’.

O “Miss” era uma pensão, e seus hóspedes, artistas que representavam cada time e interpretavam com muito humor o desempenho na rodada. Quem estivesse em primeiro lugar na tabela tinha o ‘direito’ de namorar a “miss”, vivida pela Rose. A atriz Valéria Luercy era a dona daquela pensão, e Rose, sua ‘sobrinha’, num maiô de duas peças – perto do que as “modelos” ou “marias-chuteiras” usam hoje, aquele duas peças parecia um sobretudo… O campeão paulista ‘casava-se’ com a miss.

Claro que não me lembro de todos os “representantes”, mas o Luís Pini, como diretor e um dos redatores do programa, era o Santos, que estava no auge, e passava o ano namorando a vedete. Valter Ribeiro era o “hóspede” palmeirense e, se não me engano, o grande Elias Gleiser, a Portuguesa de Desportos. Sei não, mas acho que o Ronald Golias, começando a carreira, fazia o são-paulino. O corinthiano era vivido pelo extraordinário ator Borges de Barros – o mendigo intelectual da “Praça da Alegria”, na mesma TV Paulista, e dublador do “Doutor Smith”, do seriado “Perdidos no Espaço”, do Moe Howard (Os Três Patetas) e do Pingüim (Batman – 1ª e 2ª temporadas).

Mas a Ponte Preta brilhava e tinha a simpatia dos telespectadores por causa do seu representante, o Chocolate, ator dramático, comediante, compositor… Entrava em cena de uniforme branco, aquela faixa preta cruzando a camisa, e boné.

São dele as melodias de “Canção do Amor’, primeiro sucesso de Elisete Cardoso e regravada por Caetano Veloso, em 1990 (“Saudade, torrente de paixão, Emoção diferente, Que aniquila a vida da gente…”); “Vida de Bailarina”, com Ângela Maria, em 54, e Elis, em 72 (“Quem descerrar a cortina, Da vida da bailarina, Há de ver cheio de horror, Que no fundo do seu peito, Abriga um sonho desfeito, Ou a desgraça de um amor”); “É tão gostoso… seu moço”, com Mário Lago, para Nora Ney, e o “Hino ao Músico” ou “Hino à Música”, com Nanci Vanderley, que eles fizeram para o marido dela, Chico Anysio, até hoje marca registrada do Chico: “Música é alegria, Ela vem, Lá se vai nostalgia, Música nos ajuda a viver, A sorrir, Mais amor faz a vida sentir…”.

O querido Chocolate também partiu, em 1989, sem que qualquer ponte-pretano se lembrasse de seu melhor símbolo para as grandes platéias.

Pregado no poste: “Dona Izalene, a Treze de Maio ficou a sua cara”

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