“Mesquinha aldeia”?

“Mas novas surpresas estavam ainda reservadas aos campineiros, como o ‘fonógrafo de Edson’ que, exposto também no Rink Campineiro em 12 de maio de 1880, por Militão dos Santos, provocou exclamações estupefacientes como: ‘Esta máquina reproduz clara e fielmente a palavra umana – ela canta, ri, chora, grita, assobia e toca com originalidade solos de piston. Imita com a mais perfeita naturalidade, o canto, a voz e o grito de todos os animais’”, noticiava, empolgado, o Diário de Campinas. Era a cidade entrando na “Idade do Som”, como registra a obra do professor Amaral Lapa, sobre quem começamos a conversar ontem. Seu livro, “A Cidade: os cantos e os antros”, relata, já no primeiro capítulo, um período delirante da nossa história, de 1867 a 1897.

Foi um turbilhão. Em 1881, construíram a escola “Corrêa de Mello”, ali perto do Mercadão, no terreno em que assassinaram a mãe de Carlos Gomes, Fabiana Maria Cardoso, em 1844. Em 1879, já erguiam a Beneficência Portuguesa e em 1883, a Catedral, Matriz Nova, diante de um majestoso alecrim, testemunha da nossa história, árvore também assassinada, obra de malfeitores deste fim de século, porém. Em 1884, outro hospital, a Casa de Saúde, iniciativa dos italianos do Circolo Italiano Uniti, e a estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, um modelo, que morreu estatizada. Em 1886, fez-se a luz, elétrica, testada a partir de um dínamo Elwell Parkers, nessa mesma estação.

Um ano depois, ela já iluminava a cidade. Chegou com a água encanada (e não “enganada” como hoje) e com o Instituto Agronômico, hoje “Alcides Carvalho” (sua benção, mestre!). Em 1890, outra ferrovia, a Funilense, que vinha de Cosmópolis e fazia ponto final na estação que virou Mercadão. Mais conforto em 1891 e 92: o calçamento das ruas, que era de pedras irregulares, chamado de “pé-de-moleque”, foi trocado por paralelepípedos, quase todos resistindo até hoje. Já o asfalto… Algumas ruas até ganharam o requinte do revestimento de macadame. Chique, não? Em 1895, idéia de Ramos de Azevedo, o emplacamento simultâneo das ruas da cidade e do cemitério, indicando os caminhos das moradas dos vivos e do mortos…

A última grande novidade tecnológica do século 19 no mundo levou só dois anos para chegar: o cinema, chamado de “cinematógrafo”. Foi exibido na França em 1895 pelos irmãos Lumière “e já projetado em Campinas, no Teatro São Carlos, em 1897, num espetáculo classificado, então, de ‘magia elegante’”, como descobriu um “minieirinho” de coração “campineirão”, o jornalista Eustáquio Gomes. Olha só o entusiasmo de um anúncio da época:

“Salve! Grande exposição de movimento natural, à rua General Osório, 41. Pela primeira vez nesta cidade, o perito artista Nicola Maria Parente estreará com a máxima perfeição o melhor e mais perfeito aparelho desse gênero, o maravilhoso Cinematógrafo Lumière. Sem igual, última maravilha do século XIX. Admirável. Surpreendente. Duas sessões todas as noites às 7 e 8 e meia horas. Salve! Salve! A última sublimidade da ciência que a humanidade extasiada curva-se para saudar o gênio elevado do inventor, diante da naturalidade nas reproduções de grande sucesso e importantes cenas, nas quais vêem-se representadas fielmente, por meio da fotografia, com toda a vida, tamanho e movimentos naturais! Ver e admirar o que julgar-se ia impossível.” Tudo na cidade-berço da fotografia, aqui inventada por Hércules Florence.

Em 1896, construíram a cadeia. Se a cidade piorou, os culpados nunca passaram por lá.

Pregado no poste: “Cadeia não foi feita pra cachorro. Nem pra político?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *