Melhorou?

Nunca mais vi nenhuma criança andando de patinete pelas ruas. Nem rodando pião, brincando de pula-sela ou comendo pitanga. Nem pitanga vejo mais. Carambola, então, parece um sonho jamais realizado. Está difícil ver crianças brincando na rua: esconde-esconde, pique, mãe-da-rua, balança-caixão, pulando corda. Perdi as esperanças: pra mim, o bandido e o mocinho morreram, baleados por esse futuro que chegou. Passo pelos últimos jardins das últimas casas e nenhuma menina está brincando de casinha, vestindo roupa de gente grande ou fazendo comidinha para as bonecas. Elas não brincam mais de comadres nem armam teatrinhos no quintal.

O que essa meninada anda aprontando de mais importante do que brincar?

Será que os meninos não sabem como é gostoso jogar futebol na chuva? Bem no meio da rua, tijolos quebrados marcando traves imaginárias, metas de chutes de pés descalços, dedão destroncado… Como dói! De que dor eles terão lembrança da infância? Nem o cheiro da água végeto-mineral sobrou para contar a história das dores que ela aliviava depois de uma pancada. Ninguém mais joga “bétis” em rua de terra nem queimada com bola molhada? Como ardiam as costas, nossa! E o prazer de tomar banho de esguicho no jardim da vizinha, para não chegar tão imundo em casa?

Você se lembra do prazer de pisar descalço na lama fria, num dia de verão? E da emoção de apertar a campainha de uma casa e sair correndo? Subir no telhado para jogar mamona em quem passa rua? Transformar latinha de massa de tomate em telefone? Funciona! Já fugiu das chineladas no alto de uma mangueira? E atravessar a rua de bengala, manquitolando, com o pé enfaixado, e sair correndo quando o carro pára? É mais legal esperar para ouvir o motorista xingando.

Quer coisa mais gostosa do que raspar a panela de brigadeiro e o taxo de doce de abóbora? Ou embrulhar uma cabeça de frango para presente, dentro de uma bela caixa, e deixar na calçada até que algum curioso abra e leve um susto deste tamanho?

Hoje, em vez de passear nos “brinquedos” do shopping, leve seu filho para passear no bosque. Nem que seja para catar coquinho. Juro que é melhor.

Pregado no poste: “Saudosista é a mãe!”

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