‘Maria Candelária’

Ah, mas outro dia, lendo a reportagem do Diego Zanchetta sobre as dificuldades de entrar na pista de Viracopos para noticiar a chegada dos carros da Fórmula 1, lembrei-me do Blecaute, o querido “General da Banda”, caipira de Pinhal. Fez um baita sucesso no Carnaval de 1952 com esta marchinha do Klécius Caldas e Armando Cavalcanti: “Maria Candelária, é alta funcionária, saltou de pára-quedas, caiu na letra ó, ó, ó… Coitada da Maria, trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó, ó, ó, ó….”
O dicionário da música popular brasileira do Ricardo Carvo Albin define a obra como uma “sátira bem-humorada às funcionárias empistoladas que impunemente abusavam de regalias do serviço público”. A “letra ó” era a classificação na carreira e correspondia a um bom salário — pago pelo povo. Candelárias eram beldades que entravam para o funcionalismo público apadrinhadas por políticos, não necessariamente na posição em que Napoleão perdeu a guerra ou a estrela entrou para o cinema. Sabe qual?
Mas não é que meio século depois de consagradas pelo Blecaute, elas ainda existem? A “Candelária” encarregada de assinar a autorização para o Diego entrar na pista estava numa festinha de aniversário na repartição e não o atendeu! Ele ficou impedido de trabalhar!
Nem no tempo da ditadura brava, tivemos dificuldade para entrar na pista, na alfândega, ou na torre. Imagine que o delegado do temível Dops ligava na casa dos repórteres para avisar de fatos importantes, como na noite em que teve de esvaziar um Boeing da Swissair, com suspeita de bomba a bordo. Mesmo sabendo que a censura transformaria aquela história em poema de Camões ou receita de bolo. O pessoal do Departamento de Aviação Civil, o DAC, sempre solícito, gentil e educado. Graças a eles, registramos embarque de terroristas; desembarque de fascistas, como Marcelo Caetano e Américo Thomás, sucessores do Salazar em Portugal; do general Antônio de Spínola, que derrubou aqueles dois na Revolução dos Cravos; do almirante Galvão, que desafiara Salazar…
E até o desembarque dos primeiros carros da Fórmula 1 no Brasil, a bordo de um cargueiro da Tiger, sob o comando de Míster Lester, seu cachimbo e seu uísque. Carros do Emerson, Rolf Stomelein, Henri Pescarollo, Jack Ickx, Clay Regazzoni, Jack Stewart, Ronnie Peterson, ‘Lole’ Reuteman…
A diferença é que aqueles funcionários públicos trabalhavam.
Pregado no poste: “Salário de político vem do suor do rosto alheio.”

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