Luluzinha Futebol Clube

Acho que a virada do sexo virá com a virada do século. Por enquanto, elas apenas ocupam o espaço do homem, mas sem prevalecer. Estão em toda a parte, porém não dominam. São minoria. Ainda, eu sinto. Era mais difícil uma mulher entrar na Academia Brasileira de Letras do que a Luluzinha, no Clube do Bolinha. Mas dona Rachel de Queiroz furou o cerco e, em pouco tempo, a dona Nélida, embora argentina, entrou e já preside a Casa de Machado de Assis. Enquanto isso, mesmo há muito sem ler as venturas do Bolinha, tenho certeza de que a Luluzinha não entrou lá. Aquele barracão de madeira, refúgio dos garotos, deve ser o último reduto machista da Humanidade. É: ficaram o Clube do Bolinha e a maçonaria — mas já existem pedreiras e arquitetas…

Elas estão na Marinha, na Aeronáutica, no Exército. São delegadas de polícia, juízas de toga ou de apito, mecânicas, caminhoneiras, carteiras e taxistas. Há policiais, executivas, pedreiras, marceneiras, palhaças, vigilantes, agentes de segurança, encanadoras e eletricistas. Jornalistas, então, nem se fala — se conta. Quer saber? Na edição de domingo passado do Estadão, das 119 matérias, artigos e colunas assinados, 74 são de homens, mas 45 já são de mulheres. Sem falar que nas duas fotografias da primeira página, são elas que “vendem” o jornal: a atriz Renata Sorrah e uma modelo. A mulher é notícia.

Agora, elas conquistam, parece que para sempre, o futebol. Nos Estados Unidos, elas são em maior número de atletas do que eles. Dias atrás, o Renato Otranto contou, aqui no Correio, o fim de um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro, o Operário de Campo Grande, fundado ainda nos anos 30. Pouco antes desse desenlace, Zé Duarte esteve por aqui, com as meninas da Seleção Brasileira de futebol feminino, para disputar um campeonato. Foi um sucesso inesperado. Estádio lotado todos os dias. A maior parte da galera com inveja dos massagistas e do Zé.

Muito bem. Domingo que vem, começa o campeonato estadual de futebol de Mato Grosso do Sul. A Federação de Futebol conseguiu “juntar” para a disputa cinco equipes. Melancólico: Comercial, Taveirópolis, Marítimos de Corumbá (e lá não existe mar…), Paranaibense e o Operário, se ressuscitar.

Mas será disputado o primeiro campeonato de futebol feminino de Mato Grosso do Sul. E é nesse que a torcida (e já alguns patrocinadores) estão de olho. Foram inscritas 24 equipes, representando 16 cidades do Estado. O torneio metropolitano será em abril e o estadual, em setembro. Este estado mal nasceu, ainda não atingiu maioridade, mas já mobiliza pelo menos 500 mulheres dispostas a correr atrás de uma bola nas tardes de domingo.

Os fanáticos de antigamente bradavam “futebol é pra homem”, quando algum jogador saía de campo machucado. Hoje, o povo, por aqui, explica o sucesso delas com a bola: “São charmosas e não jogam com violência”.

Sei não, mas acho que está caindo a última barreira do machismo no Brasil, justificando a lenda de que Deus fez Adão como rascunho e Eva, como obra-prima. Ou será que o Grande Mestre não precisa fazer rascunhos?

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