Liras do Trinca

Sabe o Geraldo Trinca? Isso, uma das almas do renascimento do Culto à Ciência, só que pontepretano. Ele recebeu a sugestão da professora Estella Gândara Cruvinel, nascida aí no bairro do Botafogo, na frente da fábrica de casquinha de sorvete Síber. Eles, além do Paulo, marido dela, juram que não testemunharam a maioria das cenas, mas curtem  estas “Liras de amor através dos tempos”. Vamos ouvir?

Anos 10 – Ele de terno, colete e cravo na lapela, embaixo da janela dela: “Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento? Quisera saber agora se esqueceste…”

Anos 20 – Ele de terno branco e chapéu de palha, embaixo do sobrado em que ela mora: “Ah, se eu pudesse tu estarias num altar! És a rainha dos meus sonhos és a luz, és malandrinha, não precisas trabalhar.”

Anos 30 – Ele de terno cinza e chapéu panamá entra na vila onde ela mora: “Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa! Do amor por Deus esculturada.”

Anos 40 – Ele ajeita o relógio Pateck Philip na algibeira, escreve para a Rádio Nacional e oferece a ela: “A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua, costuma se embriagar.”

Anos 50 – Ele pede ao cantor da boate e ouve: “Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora; e conte suas mágoas todas para mim…”

Anos 60 – Numa rodinha, ele dedilha o violão e solta: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça. É ela a menina que vem e que passa, no doce balanço a caminho do mar. Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema.” Ou aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço, ajeita a calça Lee e põe na vitrola uma música papo-firme: “Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o meu amor nem mais bonito.”

Anos 70 – Ele chega num Fusca tala larga, sacode o cabelão, abre a porta pra mina entrar e bota uma melô jóia no toca-fitas: “Foi assim, como ver o mar. A primeira vez que os meus olhos se viram no teu olhar…”

Anos 80 – Ele telefona pra ela e deixa rolar: “Fonte de mel, nuns olhos de gueixa, Kabuk, máscara. Choque entre o azul e o choque de acácias, luz das acácias, você é mãe do sol.”

Anos 90 – Ele liga pra ela e deixa gravado na secretária eletrônica: “Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz, mas já não há caminhos pra voltar…”

Ano 2001 – Ele captura na Internet um batidão legal e manda pra ela por e-mail: “Tchutchuca! Vem aqui com o teu Tigrão. Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!”

Pregado no poste: “Lá vai o Brasil, descendo a ladeira…”

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