Lições da fênix

“Sinto-me a reencarnação da fênix! Meu destino é dar a volta por cima e recomeçar… Um pai-de-santo há de saber quem me derruba e quem me levanta. Quer ver?

Em 1900 e bolinha, quando  quase ninguém tinha carro, nem havia motéis e as moças iam para casa antes das dez, papai e mamãe — não sei como — fizeram amor fora  do casamento (fora, onde?) e eu fui feita! O evento é tabu na família. Descobri por acaso, quando meu pai morreu. Não tive nenhum problema psicológico, mas tenho urticária de curiosidade para saber onde aconteceu. A única testemunha viva é minha mãe, mas não posso perguntar. Ela nem imagina que eu sei! Mas papai não queria se casar e mamãe pensou em aborto. Quase, quase não nasci.

Foi a primeira vez que ressurgi das cinzas. Apressada, vim com menos de sete  meses. Foi sorte meus avós serem ricos — sem dinheiro e doente, não há prematuro que vingue. Tive o melhor tratamento e após ficar na incubadora um tempão, dei certo! Bingo para a fênix, aqui!

Quando eu tinha seis anos, minha mãe mandou-me cuidar de meu irmão mais novo na calçada da Rua Visconde do Rio Branco, onde morávamos. Acredita que numa época em que passava um carro a cada meia hora, meu irmãozinho soltou a minha mão e morreu atropelado? Na minha frente e, de certa forma, por meu descuido! Tragédia familiar. Meus pais ficaram  um tempão separados e eu, nos avós. Todos brigavam, todos se culpavam.

Teve notícia no jornal, teve processo e meu pai ficou anos dando surras no atropelador. Cada vez que via o homem, ia lá e dava nele. Eu estava para ser alfabetizada, mas deu um nó no meu cérebro e ninguém me fazia entender as fileiras de letrinhas.

Ninguém pensava em psicologia e outras ciências afins, apropriadas para o meu caso. Achavam que eu era lerda por ser prematura. Fui a várias escolas e nada. Minha mãe era professora e eu continuava analfabeta.

Aí, milagre! Uma professora conseguiu!  De uma hora para outra, virei leitora voraz e acabei bibliotecária, imagine! Quando eu for famosa e me perguntarem qual o fato mais importante de minha vida, direi que foi aprender a ler!  Acho que era algum tipo de choque, bloqueio. É ou não a volta daquela que ressurge das cinzas?

Eu era uma criança triste e insegura, muito teimosa. Renasço sempre que a vida — mais teimosa do que eu — resolve queimar minha penas.”

Pregado no poste: “Em Campinas, há fênix fora do brasão”

 

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