Lá vem ela!

Eu sabia que ela era jornalista, porque o nome dela saía no jornal que chegava lá em casa toda manhã. Quase sempre ela aparecia lá para um café e uma conversa boa com minha mãe, sua amiga de sempre. Alegre, ligada, acima de tudo, empolgada. Um dia, ela falava qualquer coisa sobre o “Correio”, e eu cortei: “Quero ser jornalista!”. Ela olhou para aquele pirralho de seus oito, nove anos, e invocou minha mãe como testemunha:

— Diga para ele, Maura! Jornalista? Para fazer reportagens eu saio com o meu carro; pago a gasolina com meu dinheiro; este caderno e esta caneta eu comprei. Chego lá pela hora do almoço, muitas vezes não almoço nem janto e nunca sei a que horas vou sair. Já deixei a redação com o dia amanhecendo. Ganho só um salário mínimo e sou filha do dono! Imagine!

Cecília de Godoy Camargo é um espetáculo à parte na história da imprensa de Campinas. É gente de fazer história e sua história é uma garra só. Tudo com o que sonhou conquistou. Mas nada foi fácil. E era filha do dono.

Quando colocou na cabeça que o “Correio” precisava de uma seção para as mulheres, “o mundo quase veio abaixo”. Mas ela suportou a ironia dos “machões” da redação. No início — fim dos anos 50 –, era só uma coluna, escondida no cantinho inferior de uma página interna. Fez tanto sucesso que, aos poucos, conquistou um quarto de página. Depois, meia página, uma página inteira e, em 1960, o ‘Correio Feminino’ já era um caderno inteiro. Fez campanha do agasalho de abarrotar o parque gráfico do jornal.

Olhos negros grandes, brilhavam quando sonhava. Polêmica na época: fez uma campanha de doação de leite e roupas para as mães solteiras. Teve de suportar telefonemas malcriados de senhoras católicas conservadoras e indignadas com a atenção dispensada às “pecadoras”. Depois do expediente, não descansava. Pintava quadros e leiloava tudo em benefício de entidades assistenciais. Dormia quatro horas por noite, a filha do dono.

Em outra campanha inesquecível, ela exagerou. O dono, doutor Sylvino, “quase teve um enfarte”, tamanha a ousadia da filha. Cecília organizou um festival de teatro amador e – por absoluta falta de apoio das instituições públicas – decidiu hospedar atores e atrizes de doze cidades. Abrigou a moçada até em sua própria casa. Sucesso.

Quarta-feira, ela foi ver como andam as coisas no céu. São Pedro foi logo anunciando:

— Lá vem ela!

— Quem?

— A filha do dono…

Todos olharam para Deus, e Ele já estava de braços abertos, sorrindo:

— Carmela, Sylvino, Edward, Francisco, Chopin, venham ver quem chegou!

Pregado  no poste: “Campinas, cada vez mais cheia de ninguém!”

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