Jovens, cuidado!

Vocês estão a caminho da cidade mais suja e violenta do Brasil. Nela, não há vacina nem escudo que os protejam. É lá que se trama, 24 horas por dia, a melhor maneira de humilhar esta Nação. Só. E pagamos para isso. Alguns até roubam o que é nosso para nos humilhar ainda mais.

Soube pelo repórter João Batista César que vocês embarcam amanhã rumo a Brasília, para uma audiência com o presidente do Brasil, país que ele pensa que governa. Todos os seus antecessores também pensavam. Até os ditadores.

Faço este alerta, mas não estou preocupado. Vocês são alunos de uma escola sagrada, um templo de ensino que, como vocês, tive a ventura de freqüentar, há muitos anos. Era uma escola pequena, lá no alto da Rua José de Alencar. Mantinha só os primeiros quatro anos do que hoje se chama Primeiro Grau, que agora vai até a oitava série. Mas era uma gigante da educação, já figurava entre as mais respeitadas do País – em apenas quatro anos, preparava seus alunos para toda a vida. Ela também ensinava caráter.

Essa escola nasceu em Campinas no ano de 1863, fundada pela colônia alemã. Acredito que seja a escola particular mais antiga do Brasil em atividade. Sempre foi marcante. Um jovem pode se esquecer da primeira namorada, jamais da primeira professora. Um aluno dessa escola pode se esquecer até do berço, jamais da sua sala de aula ali.

Ninguém passa por ela incólume. Vocês levarão pela vida inteira essa marca – não passa um dia sem que algo não me faça lembrar do que ali aprendi. É mágico. Em cada momento de dúvida, vocês sentirão na alma e na mente que a melhor solução veio do que ela ensinou.

Nossos mestres sempre foram muito rígidos, duros, sim, mas jamais perderam a ternura. Se um aluno levasse um puxão de orelhas, os pais eram os primeiros a saber. Ao chegar em casa, levava mais dois, fora o castigo. A palavra do professor era sempre a última e a mais importante – na sala de aula e em casa. Abençoados puxões de orelhas, malditos dos que eu escapei.

Há poucos anos, essa escola me presenteou com um dos momentos mais felizes desta minha vida de repórter. Fui convidado a paraninfar uma turma de formandos. Jamais mereci tanta honra. Devo muito a essa minha escola querida e ela ainda me deu mais esse presente. Na hora de falar, a emoção foi tanta, o sentimento de gratidão tão imenso, que me senti perdido.

Tomara que a alma e a mensagem de grandes mestres que por aí passaram os acompanhem nessa viagem. Cada aula deles era uma benção para nós, crianças, cujos pais a eles confiaram nossa educação: Carlos Zink, Lilian Nopper, Lídia Helvig, Wally Liner, Walter, Theóphilo e Ernesto Zink – apóstolos do saber e do ensinar.

Como eu gostaria que eles estivessem com vocês nessa visita! FHC começaria levando uma reguada do professor Carlos, um safanão do Walter e um puxão de orelhas da dona Lídia. Cada ministro, deputado e senador que entrasse no Gabinete receberia a mesma lição, até todos criarem vergonha na cara, ouvindo o que ouvíamos quando errávamos: “Schwein!”. Teriam de vestir no avesso aqueles terninhos de aparecer no “Jornal Nacional” e escrever mil vezes no caderno quadriculado: “Perdão, brasileiros. Daqui para a frente, cuidaremos apenas do interesse da população, que precisa de saúde, educação, trabalho e respeito”.

Pregado no poste: “Muito obrigado, Colégio Rio Branco!”

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