Já foi pior

A bela e velha escola do monsenhor Emílio José Salim, quem diria, está maltratando seus alunos. A “escolinha da igreja”, como era chamada, de brincadeira, pelo reitor da outra, Zeferino Vaz, nasceu, cresceu, brilhou e, agora, não cabe em si de tanta gente que a superlota em busca de conhecimento. O coração de mãe transbordou.

(Em tempo: essa expressão “escolinha da igreja” o reitor da Unicamp sempre usava quando chamavam a sua universidade de “sítio do Zefa”. Era ele devolvendo ao outro magnífico uma rivalidade sadia.)

A nossa Ana Paula Scinocca, que contou estarrecida o “estado” da Puccamp, nem era nascida quando aquele campus, agora em deterioração, foi inaugurado pelo então reitor Benedito José Barreto Fonseca e pelo cardeal Agnelo Rossi, ex-professor e já prefeito da Sagrada Congregação para Evangelização dos Povos do Vaticano – o “Papa Vermelho”. D. Agnelo não era pouca coisa, não.

Foi bonita a festa. Mas o primeiro dia de aula, um descalabro. Nem aconteceu. Tempos difíceis. O curso de Biologia era equipado com microscópios comprados em partes, junto com a coleção de fascículos “Medicina e Saúde”, da Editora Abril. Os estudantes de engenharia nem tinham teodolito. Agora, os de Arquitetura nem de prancheta dispõem. Será que na Medicina existe esparadrapo? Como? Fita crepe?! Serve…

O primeiro dia de aula no “campus novo”, envelhecido tão de repente, foi tragicômico. Uma turma de História serviu de cobaia. Um ônibus saía do prédio central, ao lado do Pátio dos Leões (imagino esses leões carecas ou com a juba toda branca…), em direção ao novo lugar de aprender. Meia hora de viagem.

Viajaram a classe e um professor muito bom, cujo nome prefiro preservar. Não havia viva alma à espera dos pioneiros desbravadores. Cada sala, um anfiteatro imenso. Estava tudo sujo: carteiras, chão, corredor, paredes. Um pó e um calor de matar gente grande. Ar condicionado? Mentira. Ventilador? Mentira. Iluminação? Mentira. Escuridão.

Um grito partiu do escuro. Uma aluna inventou de estrear o banheiro, antes de entrar na classe. Até hoje, ela não sabe se foi um rato, uma aranha ou uma barata que lhe correu pelas pernas. Não havia luz no banheiro, nem papel higiênico, muito menos água – de beber ou de dar descarga.

Naquele tempo de ditadura militar, era preciso tomar muito cuidado antes de se fazer qualquer reclamação: o reclamante poderia ser tomado por “subversivo”. Não era possível assistir à aula daquele jeito. Mas se ninguém entrasse na sala, se caracterizava “falta coletiva”, atitude que a ditadura também não permitia. E agora?

Foi aí que o bom professor teve um gesto de ousadia: colocou seus alunos no ônibus e ordenou ao motorista: “Toca por quartel do 5º G Can, vamos contar tudo pro coronel!”. A comitiva foi cercada por praças armados ainda no portão. O professor pediu pra falar com o coronel e disparou: “Seu general! Não é rebeldia nem subversão. Mas não posso submeter esses jovens amantes da Pátria a um lugar inóspito nem minhas meninas a servir de pasto pra ratos, baratas ou aranhas!”. O comandante pediu que voltassem pra casa naquele dia e retornassem ao campus novo no dia seguinte. Dito e feito. Em 24 horas, a pocilga virou palácio.

Pregado no poste: “Quem tem tem medo”

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