‘Habemus arautos!’

Eles são como a bolinha do jogo de ping-pong. Sem ela, não há jogo; sem eles, não há notícia. Infelizmente, essa é uma raça em extinção, a raça dos repórteres. Tipos cada vez menos freqüentes nas redações dos jornais, das emissoras de rádio e de televisão. Alguns aparecem no vídeo, nas páginas e de microfone em punho, mas não passam de “moleques de recado”, estrelas de grandeza alguma. Nada mais. Esses não têm sangue, o puro-sangue, que se exige de quem se diz Jornalista.
Não os confunda com burocratas, subjugados e acomodados aos dados de um boletim de ocorrência, aos comunicados de empresas e órgãos do governo, às declarações oficiais de autoridades, todas elas, sem exceção, especializadas em camuflar a verdade. Nem os confunda com os ingênuos, facilmente seduzidos por discursos, sempre inúteis, dos políticos. Também não se iluda com os “picaretas”, que exercem a profissão em causa própria, para ganhar dinheiro – chantagistas; que profanam o sagrado dever e o sagrado direito de informar – gigolôs da notícia. Desconfie do repórter que nasceu pobre e ficou rico na profissão.
O repórter, o verdadeiro repórter, exibe sua notícia transpirando suor (e lágrimas, alegres ou tristes), ela tem cheiro de rua (da sua rua) e de mato (do mato que cresce na frente da sua casa). A notícia do repórter que não foi atrás dela fede a carpete, exala o aroma azedo e bolorento daquele que passou o dia em gabinetes, tomando o “cafezinho da imprensa”. A notícia desse repórter foi pescada por telefone, não foi caçada nem testemunhada por quem tirou a bunda da cadeira para ver, olhar no olho, tomar sol e chuva na cara, não saber de horários nem se lembrar de hora extra, da fome, muito menos da família, do filho doente ou da mulher que está para lhe dar um filho. É um enganador; não é um repórter.
O verdadeiro repórter é o espelho do mundo, da sua cidade, do seu bairro, visto por olhos nos quais você pode confiar. É o que sabe contar a história à queima-roupa, é o que não perde, jamais!, a capacidade de se indignar. Não existe melhor representante do povo do que o repórter. Mas se ele se candidatar para representá-lo, não vote nele, nunca!, porque deixou de ser repórter: vai enganá-lo, como os eleitos.
O famoso “faro”, a indispensável sensibilidade, a argúcia, são instrumentos de trabalho do repórter como o conhecimento da língua. Nada de literatura nem literatices, mas a linguagem simples e média dos que vão comprar seu trabalho nas bancas, vê-lo ou ouvi-lo. É imperdoável que fale e escreva mal. Que moral e competência tem um repórter que não conhece seu idioma, para denunciar a qualidade de um produto, os erros de um engenheiro que não soube calcular a obra desabada ou de um médico que negligenciou a vida do doente?
Depois de aprender com grandes repórteres (meu irmão Roberto Godoy, entre eles) e chefiar mais de 100 repórteres, ao longo de quase um quarto de século, dedico esta crônica a três jovens jornalistas – Christiane Ribeiro, Crislaine Coscarelli e Samuel Leite – que acabam de nascer para a profissão nesta nossa Campinas. É deles o livro-reportagem “A Última Sessão”, que resgata a verdade escondida entre os escombros da tragédia do Cine Rink, que parou esta terra em 16 de setembro de 1951, depois de matar 25 pessoas e ferir outras 400. Vão além de um simples livro-reportagem, que conta uma história. Eles foram à luta e deram um furo. Um crime premeditado (ou uma negligência?) provocou a maior tragédia da história da nossa cidade. Uma notícia que levou 45 anos e três meses para ser divulgada.
Felizmente, ‘habemus arautos!’, assim, nessa definição solene e gloriosa, como a que se dá aos papas (‘habemus papam!’). Afinal, não é todo dia que aparecem papas.
Pregado no poste: “Mestra Zilda Rubinski, um beijo pelas aulas de Latim e pelo amor que a senhora me ensinou a dedicar à nossa língua.”

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