Há cinqüenta anos!

A personagem da Beatriz Segall perguntou ao a de José Lewgoy se havia demorado muito para ir àquele encontro. “Quando ele exclamou ‘cinqüenta anos!’, perdi o chão, tamanha sua força da interpretação. Tivemos de regravar, porque ‘cinqüenta anos’ na boca do Lewgoy soam como cinqüenta séculos!” A magia se repete quando Débora Duarte arqueia a sobrancelha direita. O Antônio Fagundes diz que caiu no sofá do cenário de “Terra Nostra” – eu daria o Oscar para aquela sobrancelha. Rita Hayworth ficava nua só de tirar uma luva em “Gilda”.

Qualquer palavra cruzada ensina que atores e atrizes, de verdade, são pessoas que sabem fingir. Uma extraordinária atriz portuguesa, de nome Joana Seixas, tão bem representou uma advogada numa novela, que não mais consigo imaginar uma sessão do tribunal do júri sem ela. Joana simboliza a adoção para esses artistas daquela definição de seu conterrâneo Fernando Pessoa, que, hoje, ele declamaria assim: “O ator é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor /A dor que deveras sente.”.

Quem viu consegue se esquecer de Procópio Ferreira agradecendo “Deus lhe pague”, do Joracy Camargo, no nosso Teatro Municipal Carlos Gomes?

Um dia, o leitor Roberto de Souza me contou esta cena que ele viu e resume bem o que significa ser ator (para quem não leu, repito):

Nesse mesmo teatro, certa vez, entrou um menino no palco, aparentando uns oito anos. Boné, calça com suspensórios, camisa listrada, caminhando entre carpinteiros, marceneiros, pintores, que montavam o cenário.

— Mas você não pode ficar aqui, diz o carpinteiro. Aqui é um palco de teatro, não vê?

— Mas quero ficar aqui, trabalhar aqui.

— Mas não pode… Você é muito criança… Por que você quer trabalhar?

— É para ajudar minha mãe… Ela precisa de ajuda, coitada… Está doente… Não tenho pai… Me deixe trabalhar aqui…, insistiu. Preciso…, quase suplicava.

Os outros trabalhadores pararam, se entreolhando, sussurrando, procurando no bolso algum trocado, com pena do garoto. Quem chegou muito cedo, não entendia o que estava acontecendo.

— Não sabemos o que fazer, disse o mestre dos trabalhadores. Vamos tentar ajudar… Também, você tem de entender que para trabalhar no teatro, a pessoa precisa ser artista, saber representar… Como vamos fazer?

— Mas eu sou artista, sei representar…

— E como vamos saber se você é artista, se sabe representar?

— É fácil, disse o menino, tirando o boné, mostrando cabelos um pouco compridos. Sabem, tudo o que eu disse é mentira; inventei; sou uma menina, tenho família, vivo bem… Só quero trabalhar no teatro…

O aplauso foi muito grande e todos os trabalhadores, dirigidos pelo mestre, na frente do palco, descobriram que aquele menino era menina de verdade. Seu nome? Regina Duarte.

Pregado no poste: “Até quando fingirão que Campinas tem teatro?”

 

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