Há 50 anos-II

Vamos acabar a visita que começamos ontem, numa casa de 50 anos atrás?

Olhe só: a lâmpada. Ela pende por um fio ornado de papel crepom colorido, se enrosca no soquete e basta girar a ‘pêra’ para ser acesa. Cuidado para não tomar choque nem queimar a mão! Esse cheiro gostoso é do feijão cozinhando na panela de ferro. Eles ainda não têm panela de pressão e esse feijão vai levar quatro horas pra ficar pronto. Também não têm geladeira elétrica, só essa, de madeira, com uma pedra de gelo dentro. Por isso, têm de cozinhar quase todo dia, se não, a comida estraga. Olha lá: máquina de moer carne! O que não estraga vai para o guarda-comida, esse armário com tela, pra não entrar bicho. Veja a manteiga, fica nessa tigela com água, para não derreter nem rançar. O lugar mais fresquinho da casa é em cima da pia, perto da talha d’água e da moringa de barro. Têm de ferver o leite, e o café é passado nesse coador de pano. Bom que só vendo, digo, bebendo.

O banheiro não tem bidê, mas tem banheira, e o papel higiênico é Sulamérica – cor-de-rosa. No armarinho, já embutido e com espelho, há glostora; sabonete Eucalol; gilete azul e aparelho monotech, para se barbear. Uai! E a navalha? Pedra ume, “arco” e “tarco” para depois da barba, porque a “verva” ainda não existia. Há um pote de vaselina (será que também era para passar no cabelo?)… Aquele pedaço de cabo de vassoura pendurado naquela chave é para ligar e desligar o chuveiro.

Vamos entrar no quarto? Enorme, só perde para a sala. Disfarça e olhe o penico de baixo da cama. Não falei? Ao lado, a velha “paragata”, o chinelo de corda. Travesseiro e colchão de penas; estrado de molinha; copo com água no criado-mudo, para guardar a dentadura, e um crucifixo enorme na guarda da cama. Olhe só o quintal: o chão de terra tem sombra de mangueira e jaboticabeira; regador para aguar as plantas do jardim; galinheiro; o coarador; varal de arame erguido pela vara de bambu. Aqueles paninhos pendurados é porque ainda não existe o Modess…

Quem se lembra bem de uma casa assim, deliciosa, é minha amiga Aparecida Denaro, que vive na incrível Sertãozinho, enquanto a cidade grande se espreme em apartamentos.

Pregado no poste: “Pra que serve político?”

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