Há 50 anos-I

Deverá ser uma bela experiência. A TV pública inglesa contratou uma família que topou viver três meses numa casa, só com recursos disponíveis em 1900. Como você não vivia naquele tempo, vamos fazer de conta que entramos numa casa em 1950. Esta não tem campainha — bata palmas. Nada de televisão. Numa parede, o retrato enorme, do ‘nono’ e da ‘nona’, que viveram ali. Na outra, a Santa Ceia.  Sob a janela da sala, o rádio – de válvulas, grandalhão, acoplado à vitrola. Nenhum longplay, só 78, uma música de cada lado. Tudo tinha seu lado bom, menos um disco da Marlene, diziam. (Desculpem, sou fã da Emilinha).

A tampa da privada é de madeira; cordinha para dar a descarga; a “caixa” grudada na parede e uma bóia dentro para não vazar. Penico de ágata debaixo da cama, herança do tempo recente, em que o banheiro ficava fora da casa. Se o fogão não for a lenha, é elétrico. No chão, passadeiras, e sobre o assoalho, o congólio. O brilho vem com escovão, palha de aço e cera (Parquetina ou Colmeína?). Enceradeira? Acho que ainda não. Mas já se sonhava com batedeiras e liqüidificadores, anunciados nas revistas Life e Seleções. Punhos, colarinhos e saiotes eram engomados, depois de lavados com sabão em pedra (Minerva, Campeiro ou feito em casa, com soda, sebo e breu.). Punham anil (Colman?) na água e a roupa ia para o coarador, para o sol tirar as manchas. Tudo lavado no tanque, porque as pioneiras máquinas de lavar Bendix e Westinghouse estavam a caminho. Numa mesa forrada com aquele cobertor cinza de listras vermelha e branca, envolto num lençol amarelado, se passava roupa, com ferro a carvão ou os primeiros ferros elétricos.

Na cozinha, as panelas eram areadas com areia fina ou cinza do fogão a lenha. A pia era de granito – em volta dela, uma cortininha de chita colorida escondia as latas de banha, cestinha de alho e cebola, saleiro, desentupidor… Na porta que dá para o quintal, por via das dúvidas, uma ratoeira; no guarda-roupa, naftalina.

Chi! A dona está chegando! Vamos pular a janela. Fique tranqüilo, ainda não existem alarme, Pittbul nem Rotweiller. Amanhã, continuamos.

Pregado no poste: “Pra que serve assessor de político?”

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