Greve na grade

Não, ninguém está propondo que os grevistas sejam levados para trás das grades. Se bem que alguns mereçam, quando transformam movimentos legítimos em arruaça, baderna e prejudicam quem nada a tem a ver com suas reivindicações. No linguajar dos críticos de TV, a programação de televisão virou “grade”. A expressão foi criada pelo gênio de Edson Leite, na extinta TV Excelsior, e consagrada por Walter Clark, na também finada TV Rio e transferida para a ‘viva’ Rede Globo.

Se os sindicatos de trabalhadores, principalmente os de Campinas, decidirem colocar a programação de suas greves numa “grade”, todos seus filiados poderão fazer greve o ano inteiro, sem prejudicar a vida de ninguém, ganhar a simpatia da população e até lutar por algum patrocínio para suas paralisações. Algo assim como “Hoje, às 17 horas, greve dos professores do ensino municipal. Um gentil oferecimento da Editora Março, aquela que alfabetiza seu filho mesmo com os professores em greve. Não perca.”. Ou: “No ar, mais um campeão de audiência — a greve dos chapeiros de lanchonetes. Patrocínio do McDonalds, lugar de gente feliz e, agora, de papo por ar.”.

Mais: uma greve dos funcionários da “Teleafônica”. Eles terão, até, o direito de calar todos os aparelhos. Talvez não tivessem tanta audiência, visto que qual a diferença se a população já está se acostumando a esse silêncio? Será que a fabricante do Jontex patrocinaria uma greve de funcionários de motéis ou das “funcionárias” do Jardim Itatinga? Quem patrocinaria, por exemplo, uma greve de vereadores ou de todo o gabinete do seo Pagano? Uma fábrica de colchões? O que aconteceria se Executivo e Legislativo entrassem em greve eterna? Nada?

Já pensou que maravilha uma greve de “pastores” eletrônicos e de igrejas caça-níqueis? Todos teriam uma hora por dia para pregar enganação em suas estações de rádio e TV e o povo perderia menos dinheiro na viagem ao céu, prometido por quem os ilude a pagar a passagem. Alguma agência de turismo toparia patrocinar?

Sei não. Uma vez, médicos de Israel entraram em greve e a mortalidade no país diminuiu. Veterinários da Secretaria da Agricultura de São Paulo também pararam uma vez. Ninguém percebeu. Voltaram depressinha para o trabalho. Quem conta é um veterinário, amigo meu.

Cada categoria poderá fazer sua greve diariamente, durante o ano inteiro, com uma hora de duração. A programação terá transmissão em emissora aberta de televisão e em rádios AM e FM, publicada semanalmente nos cadernos de TV dos jornais, para que toda a população sintonizasse e ouvisse a discurseira: palavras de ordem, críticas ao FHC, impropérios contra a globalização, o neoliberalismo, o FMI, maus patrões, tudo. A qualidade dos programas de rádio e televisão anda tão ruim, que a audiência dos grevistas seria garantida. A concorrência pelo maior Ibope será acirrada. Cada categoria de trabalhadores lutará pela greve mais atraente, contratando até oradores de uma classe para aparecer no programa da outra. Assim, eles não precisariam mais fazer passeatas, barulheiras, infernizar a vida do povo e poupar a paciência, o tempo e o sono de quem tem de trabalhar e (ainda) não vê motivos para fazer greve.

Pregado no poste: “Já assistiu à sua greve hoje?”

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