Frieza e ternura

Ele dizia que seu maior prêmio era a marca dos cinco dedos da atriz Marlene Dietrich deixados em seu rosto, na porta do Teatro Record, depois que ele a fotografou sem maquiagem. Mas poderia ser o espetacular drible na segurança mais rigorosa do mundo, a do presidente dos Estados Unidos. Em 1957, Dwight Einsehower desembarcou em Cogonhas. Chovia e os seguranças decidiram que a imprensa ficaria retida no aeroporto para que a comitiva seguisse rapidamente ao Palácio dos Campos Elíseos. Coberto pela capa de um batedor da Força Pública, ele chegou na garupa da moto e foi o único a fotografar a chegada do Ike à sede do governo paulista.
Com o repórter Roberto Godoy, acompanhou várias etapas da construção da hidrelétrica de Itaipu. Um dia, os dois descobriram que o ditador Alfredo Stroessner estava numa casa perto do então maior canteiro de obras do mundo. Lá fora, os seguranças (sempre eles) de paletó, gravata e óculos escuros. Padovani (Só ele, para levar paletó e gravata numa obra!), sacou da mochila a fatiota e entrou na casa. Em minutos, saiu, para espanto do Beto: “Vamos entrar. Falei com o homem, expliquei a situação e ele vai te receber assim mesmo, até com os sapatos sujos de lama.”.
O desafio: fotografar um inseto que atacava uma lavoura. Só que o inseto era transparente. Padoca levou o bichinho pra casa, armou um cenário especial na cozinha, esparramou as folhas da planta e esperou. Quando o inseto pousou, com um conta-gotas ele coloriu o bicho e fez a foto. Capa do Estadão, mais um prêmio para ele. Quando estava entre pessoas “importantes”, falava difícil. Como na Festa do Frango em Descalvado. Ele matou de rir a comitiva do então governador Paulo Egydio: “Excelência, por obséquio, aproxime-se mais do galináceo, para o senhor sair melhor.”.
Foi “guerrilheiro” na América Central, “batateiro” em São João da Boa Vista, “perito” da Polícia Técnica, especialista em fotos industriais e “psicólogo” infantil nas horas mais difíceis de uma criança. No Instituto de Moléstias Cardiovasculares de São José do Rio Preto, estava pronto para fotografar a cirurgia no coração de uma menininha triste. Tão triste, que ele pediu licença aos médicos, saiu e voltou com um urso de pelúcia enorme para ela. E ela sorriu. Até hoje, ninguém que estava naquele centro cirúrgico gelado se esquece da cena.
Lá está ele entrando no Céu, sacola a tiracolo e máquina colada ao rosto, se explicando com São Pedro: “Disseram que Deus estava em Jundiaí, mas só fiquei sabendo que ele veio pra cá, em Hortolândia. Posso fazer uma foto dele? É pra edição de amanhã…”.

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