Foi ontem só, só, só!

Desta semana não passa. Cada um que lê as profecias do Nostradamus fala uma coisa. Alguns garantem que o mago de Saint Remy de la Provence marcou o fim do mundo para ontem. Se não acabou, vamos em frente. Outros esclarecem que a agonia dura até amanhã, quando acontece o eclipse total do Sol. E os que querem esticar mais um pouquinho falam na sexta-feira, 13. Sobra a “Turma do 2000”, confiante em outra interpretação das previsões, aquela que diz assim: ”A 2000 chegarás, de 2000 não passarás”. Se for assim, a Macaca, que comemora 99 anos amanhã, junto com o eclipse, não fará cem anos… Nem ela nem clube de futebol algum. Ou Nostradamus disse que “de dois mil não passarás” só para a Ponte Preta?

Essa hipótese de o mundo acabar amanhã, com o eclipse, parece mais razoável. Pelo menos livra a nossa cara: a Terra só ficará escura no Oriente, parte da Europa, por lá, no outro lado. Dizem que Nossa Senhora anunciou que a América Latina não será afetada. Mas estaremos ferrados do mesmo jeito, porque o mundo termina lá, e aqui a gente agüenta FHC, Menem, Fidel Castro, Hugo Chávez, Fujimore e outras pragas que assolam o povo.

Quando a humanidade passou de 1899 para 1900, quase não se falou que ela ia se apagar. Aquela passagem não meteu medo. E 1900 foi cheio de acontecimentos importantes. Na literatura, por exemplo, Machado de Assis lançou uma dúvida que dura até hoje: afinal, Capitu pulou a cerca ou não? Aqui na terrinha, nasciam a Ponte, o Colégio Progresso e o jornal “Commércio de Campinas”.

No Brasil, foi uma farra. O presidente da República era o campineiro Campos Salles, o governador dos paulistas, Fernando Prestes, e o prefeito de Campinas, Manoel de Assis Vieira Bueno. Nosso PIB chegava a US$ 5 bilhões e a população, a 17 milhões. Chiquinha Gonzaga bradava “Ô abre alas, que eu quero passar!”. Nasciam o sociólogo Gilberto Freire; o educador Anísio Teixeira; o marechal Castello Branco; o jornalista Otto Maria Carpeaux; meu avô e minha avó maternos (dá licença?); o curador de obras de arte Pietro Maria Bardi e o cangaceiro Lampião. Como desgraça pouca é bobagem, a febre amarela, a malária e a peste bubônica matavam sem parar. Rodrigues Galvez, “o imperador do Acre”, era deposto e o primeiro bonde elétrico rodava por ruas de São Paulo.

Olha só as novidades lançadas em 1900: a espingardinha de chumbo; os pneus Firestone; a máquina fotográfica “câmera-caixão”, da Kodak; o Guia Michelin de restaurantes (bíblia do Beto Godoy) e a Copa Davis de tênis. Para a alegria dos psicólogos, psicanalistas e fabricantes de divãs, Sigmund Freud desvendava o inconsciente, com o livro “A interpretação dos sonhos”. E para desespero das “sapatões”, chegava às livrarias “Cinderela, a gata borralheira”, de Georges Méllès. Serviu?

Depois de tanta “cultura inútil”, nada mais inútil do que esperar o fim do mundo. Vamos trabalhar! (Mas há emprego pra todos?).

Pregado no poste: “Mãos ao alto! Isto é um pedágio!”

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