Filhos d’aposta

Não sei quem foi. Mas inventaram de dar um prêmio de um milhão de dólares para os pais do bebê que nascer exatamente à meia-noite deste 31 de dezembro. Será, ao mesmo tempo, o bebê primeiro e último – primeiro do ano 2000 e último deste ano. “Coisas de fim de século e fim de milênio”, talvez dissessem no ano de 999. Agora, encomendar um filho virou loteria. No jóquei clube, vão dizer que é “pule de dois”. Ou assinaram uma rifa? Será que uma vida nova se transformou em bolinha de bingo?

E se essa criança vier ao mundo um segundo antes de acabar este ano ou um segundo depois de começar o próximo? Sim, porque 99,99% dos que entraram nessa corrida estão sem vontade alguma de ter um filho. O que eles querem, mesmo, é ganhar um milhão de dólares. É uma proposta indecente para quem ainda não foi concebido.

Como vai ficar a cara dos que apostaram num filho e o filho não deu? Bilhete de loteria, pule de corrida de cavalo e cartela de bingo ou de rifa que não vingam o apostador joga fora. E esse bebê que frustrou a aposta dos casais? Também será jogado fora, entregue a um orfanato, creche ou será abandonado na porta de alguma casa de gente rica? Aparecerá quem queira adotá-los? Tomara!

Pode acreditar: vem aí uma legião de filhos da ganância e do trauma. Vão carregar uma culpa que não têm até o fim da vida.

Um amigo até se imaginou participando dessa jogatina com a vida de quem não pediu para nascer – muito menos sobre um pano verde. Pensou bem e desistiu: “Se falhasse, não saberia o que fazer com esse filho. Não era ele que eu queria, mas o dinheiro. E um dia ele saberia disso.”.

E o garoto passaria o resto da vida ouvindo dos amigos – até dos próprios pais: “Investiram todas as esperanças nesse verdadeiro jogo de azar. Meses de tratamento para a mãe estar no período fértil; até de Viagra o pai se abasteceu; escolheu o melhor motel; faltou três dias ao trabalho; freqüentou mãe, pai, tia até avó de santo, mas tudo deu errado.”. Pois é: infeliz no amor e… infeliz no jogo.

Nunca as maternidades estarão tão lotadas, mas de pais frustrados, em vez de ansiosos ou felizes pela chegada do filho. “Agora, não adianta mais nascer”, vão pensar, no fundo do coração. Se é que quem planeja essa jogada tem coração. “Um milhão de dólares! Até comecei a gastar por conta. Essa criança chega já me trazendo dívidas.”. A fúria alucinada por embolsar tanto dinheiro fará com que os únicos responsáveis pela perda ponham a culpa no inocente. É isso mesmo: jamais sentirão a felicidade de que ganharam um filho; sempre sentirão que perderam um milhão de dólares.

Também haverá separações, claro: homem e mulher, um acusando o outro pelo prejuízo. Incrível: pelo prejuízo de terem um filho que eles mesmos encomendaram! Que nome esses coitados – apressados ou atrasados — terão no registro de nascimento? Coisas de fim de século e fim de milênio.

Cruel, mas é verdade: haverá casais que, descobrindo que não vai dar tempo ou que o parto ficará para depois, apelarão para o aborto: “Um milhão de dólares ou nada.”

Essa loteria dos inocentes prova que a raça humana chega ao fim de dois mil anos de história depois de Cristo, ainda desprezando o maior bem que existe na Terra: a vida.

Pregado no poste: “Você gostaria de valer só US$ 1 milhão?”

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