Faltou o Lima Duarte

A última imagem romântica da Via Anhangüera que eu vi foi descrita pelo Lima Duarte, contando a aventura da vigem que o trouxe das Minas Gerais para descarregar um caminhão de abacaxi no Mercadão de São Paulo. (De abacaxi, Lima, ou manga?). Imagine a saga do nosso ator maior. Diz, mestre: “Era mais ou menos 1950… Mal dava para ver a paisagem. Poeirão danado e eu na carroceria daquele caminhão, esperando o Mercadão da Cantareira, que nunca chegava. Asfalto? Só de Campinas pra cá. Lá atrás, pó!”.

Essa Anhangüera pioneira, que nos trouxe o Lima e cada vez mais divide a rota da Mogiana com a Bandeirantes, deixa na memória muito de sua paisagem original. O busto do Adhemar de Barros, ali no km 92, arrancado por militares e jogado na porta do Correio Popular, na Rua da Conceição, numa noite de chuva… Quase em frente, a imensa máquina de costura da Singer. O primeiro pedágio, a fábrica da Clark Equipment e as plantações de figo de Valinhos. Os parreirais de Vinhedo. Em Louveira, a saudável disputa do Frango Assado, de um lado, com o Lago Azul, do outro, pelos viajantes de fim-de-semana, que faziam na estrada um imenso piquenique nas tardes de domingo.

A Cica, a PaolEtti e aquele lago imenso na frente da fábrica, em Jundiaí. (Não, o mundo de antenas de televisão em Jundiaí se via na vigem de trem.). Ainda em Jundiaí, o restaurante Santo Antônio. As entradas para Campo Limpo e Várzea Paulista e lá para dentro, a bifurcação da estrada velha de São Paulo, com a placa “Campinas / Franco da Rocha”. Como existia o manicômio em Franco da Rocha, o povo de Jundiaí chamava a pequena vila formada atrás daquela placa de “Bicha Louca”. Não sei por que…

Mais pra frente, os eucaliptos da Melhoramentos, em Caieiras. Em Cajamar, o segundo pedágio. No km 39, Jordanésia, com seu posto telefônico. Quase em São Paulo, o restaurante Borba Gato, as fábricas de bacia (e tampa?) de privada da Goiana e a de tecidos Ciaesa, da família Farah. Quando aparecia o pico do Jaraguá, os passageiros do Cometão começavam a passar pente e escova no cabelo e a retirar as malas do bagageiro. O ponto final ainda era na Avenida Rio Branco.

Quando mais um pedaço duro e frio da Bandeirantes é entregue, minha homenagem aos policiais rodoviários do km 99 da Anhangüera, pioneiros a honrar essa farda, a navegar nas Harley Davidson e a distribuir coragem, atenção, competência e, acima de tudo, honestidade por aquela pista. Como era seguro viajar com eles nos saudando e vigiando nosso caminho!

Pregado no poste: “Dona Izalene, não nos lembre de Jacó Bitar!”

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