Está faltando ele

Não tivesse sido assassinado por encomenda, hoje estaria perfumando o centro da cidade, posto que floresce o ano todo, com mais intensidade em outubro e novembro. Mais um mês, estaria esparramando seus frutos pela calçada de nossa praça maior. Estava ali havia séculos e viu tudo acontecer à sua volta — obra dos homens bons desta terra de Barreto Leme – até que homens maus decidiram seu fim. Partiu despedaçado numa madrugada, levando parte da história da cidade – feliz foi Campinas, enquanto teve uma árvore como testemunha de sua vida. Infeliz ficou, depois que aqueles que mandaram matar sua árvore vivem soltos fingindo orações. De tanto desgosto, caiu também o companheiro de jornada da árvore de nossas vidas – seo Rosa.

Nosso “Correio” de terça-feira chegou ontem, com o relato da repórter Maria Teresa Costa, a propósito, terror dos medíocres, dando conta de que “a centenária Catedral Metropolitana de Campinas terá mais um altar, na entrada do templo, em homenagem aos 2 mil anos do nascimento de Cristo e será inaugurado no dia de Natal.” O arquiteto disse a ela que “o altar não irá descaracterizar em nada o centenário templo.” Mas ele está descaracterizado desde que abateram aquele autêntico altar da natureza que embelezava sua entrada e dava sombra aos cidadãos.

Assinala a Teresa que a Catedral começou a ser construída em 1807, quando a cidade tinha apenas quatro mil habitantes, e hoje é o principal patrimônio de Campinas. Trinta anos antes, aquela árvore já estava lá, abrigando, frondosa, a tropa de Barreto Leme. Sob sua sombra, aqueles quatro mil campineiros ergueram e viram nascer a igreja que lhes fortaleceu a fé. Ficou o patrimônio de taipa de pilão, obra dos homens; mataram o patrimônio da natureza, que a tudo assistiu, obra de Deus.

O templo precisa de cuidados que custam R$ 2 milhões, para evitar que suas partes desabem na cabeça dos fiéis. Sabe quanto custa uma mudinha do Alecrim de Campinas, descendente do que foi assassinado? R$ 15. Quase nada, mas é mais do que a coragem que falta aos que deveriam reparar esse mal.

Pregado no poste: “Toda árvore vale mais do que aquele que a derruba.”

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