Era tudo marmelada

Vamos voltar quase 40 anos no tempo. Tudo por causa da reportagem da Maria do Carmo Pagani e do Jefferson Coppola — “Vale Tudo reflete violência de fim do século”, de 24 de março. Pela leitura, o ambiente é igual ao das rinhas de galo, tão proibidas quanto freqüentadas no Brasil todo, principalmente em Minas Gerais. Um bando de doentes mentais reúne-se diante de um tablado cercado por cordas para se deliciar com a troca de violência entre outros dois doentes. De lucidez, as duas vítimas só exibem o reconhecimento de que correm risco de sumir da vida. Um suicídio calculado, como o da roleta russa.

O espectro da morte ronda esse “Coliseu” sem pompa nem circunstância, armado em Vinhedo. Justo Vinhedo, onde jamais se colheram as vinhas da ira, foi escolhida para cenário de uma ma barbárie, nunca sonhada por John Steinbeck.

Os depoimentos ouvidos pela Maria do Carmo revelam que são anormais os sentimentos que levam a turba para lá: “Acho que porrada é a solução para os problemas do mundo”, disse a ela um jovem de 19 anos, confesso acostumado a brigas de rua. Candidato a ser falso PM, na certa. (Por falar em PM, onde anda aquele outro falso policial — e falso ser humano — que tentou matar pelas costas um garoto aí em Campinas, ano passado? Esse “valente” ainda não foi solto?).

Outros desclassificados comprovam que nem deveriam ter nascido. São os que urram “derruba este negão, acaba com a raça deste preto safado!” Afinal, para que serve um racista? É tão inútil quanto um traficante de drogas ou político. Político ladrão, vai. Para coroar o cinismo, ainda reclamam da falta de patrocínio e chamam isso de esporte. E a polícia não faz nada.

Ei, gente de Vinhedo! Vamos acabar com essa vergonha?

Falei numa volta de 40 anos no tempo, para lembrar de quando tudo isso era uma grande farra. Não levava o nome enganador de Free Style. Era luta-livre que se foi degenerando, e ganhando outros nomes: vale-tudo, catch-as-can, por aí. Até dar nisso. Aí, virou violência o que era um ingênuo espetáculo de circo, popularizado pela TV Record, quando ela era uma estação de televisão e não um caça-níqueis.

Era uma farra mesmo. Fechava as noites de sábado, depois do “Astros do Disco” e do futebol. Quem viu não se esquece nem se degenerou, porque ninguém se divertia com aquelas palhaçadas por achar que “os problemas do mundo se resolvem com porradas”. Lembra deles? Gatica, Goitia, Elias Joki, Phantomas, Orlandi, Carrasco Paraguaio. O saudoso Raul Tabajara narrava aquelas brincadeiras, fazendo um esforço danado para que todos acreditassem que tudo aquilo fosse verdade. Só que, depois da “pancadaria”, estavam todos inteiros, prontos para nova sessão.

Aquela troupe esteve várias vezes em Campinas, se exibindo em circos e num pavilhão erguido aí na Delfino Cintra, perto do busto do seu Orosimbo Maia. Foi aí que eu vi o Elias Joki desesperado, numa “luta” com o Gatica. “Brigavam” e conversavam. E o Gatica perguntava: “Cadê o molho? Ocê num trouxe o molho?” O Elias respondia atônito: “Esqueci, saco!” A “luta” não acabava, porque ela estava planejada para terminar com os dois “ensangüentados”, mas o Elias havia esquecido o saquinho com o molho de tomate no camarim. Nem minha avó, que não perdia uma noitada daquelas, acreditava na “seriedade” das lutas. Hoje, infelizmente, vivemos no país do “vale-tudo”.

 

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