Era seguro e não sabíamos

As lojas, principalmente as da Treze de Maio e da Barão de Jaguara, tinham vitrines iluminadas. Bonitas. Até concurso de boniteza havia, para os dias das Mães, dos Pais, do Professor, das Crianças, de Natal, Sete de Setembro, Dezenove de Novembro. Varavam a madrugada acesas e amanheciam sempre belas, de beleza para ser admirada ainda por boêmios, notívagos, guardas-noturnos e “mariposas” e “cigarras”… Por que não?

As casas tinham muro baixo, jardins bem cuidados — vaidade das donas, para que todos vissem suas rosas vermelhas, brancas, amarelas… Canteiros de margaridas, begônias, gerânios, onze horas, cravos – que jamais vi brigando com a rosa, nem debaixo das sacadas… As famílias sentavam-se em cadeiras de balanço nas calçadas; a meninada brincava de pular corda, jogar bola, esconde-esconde, mãe-da-rua…

No começo da noite, filhos recém-casados, na saída do trabalho a caminho da morada nova (Quem casa quer casa, pois não?), passavam para dar uma olhadinha na ‘mama’ ou na ‘nona’. Jamais saíam de vez – fossem descendentes de italianos, a conversa esticava mais na rua do que lá dentro…

Os prédios de apartamentos eram poucos, mas sem porteiro nem porteira, naquele mundo, velho, mas pequeno e sossegado. Quando muito, o zelador, que às vezes nem ali morava. Cada morador tinha sua chave.

O guarda-noturno, de quem me lembrei ali em cima, e o tranca-ruas (inspetor de quarteirão de então) não estavam na ronda para pegar bandido. No máximo, espantar um ou outro ladrão de galinhas e acertar a fechadura para quem chegasse alto demais de uma noitada bem regada e mal regrada.

Ainda me lembro da Farmácia Noturna, aberta a noite toda; dos hotéis, Términus, Vitória e Savoy, sem guarda algum na porta. Da Rádio Cultura, na Benjamin Constant, 24 horas no ar, anunciando orgulhosa que “jogara a chave fora”. E bandido algum ousou tomar seus estúdios, render o sonoplasta Pedro Lhamas muito menos o locutor Ary B. Pontes. Nenhum bandido ousou porque nenhum bandido havia.

Agora, as casas, os jardins e os prédios, daquela feliz cidade, aos poucos, sem cometer crime algum, vão parar atrás das grades, protegidos por cercas eletrificadas, muros, logo, logo, muralhas, que separam campineiros incluídos de excluídos, mais marginalizados do que marginais, porque sempre houve muitos marginais, de verdade, na regência deste País.

Pregado no poste: “Que triste aniversário, Campinas!”

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