Ele tem razão

Domingo passado, o professor Sérgio Nogueira falou ao Jornal do Brasil sobre sua irritação com a pobreza do linguajar que contamina a imprensa, principalmente no texto das notícias. É uma chuva de chavões, lugares comuns, “clichês”, como se diz nas redações, que torna previsível qualquer tipo de informação. Sempre se usam as mesmas figuras para descrever as situações, que basta substituir números, locais e datas para contar como tudo aconteceu. E a maioria dessas observações do professor está em todos os manuais de redação, mas infelizmente, muita gente não está atenta e continua repetindo.

Alguns dos exemplos que ele dá, depois de uma tempestade no Rio de Janeiro: “A chuva pegou o carioca de surpresa: o mau tempo provocou estragos; a chuva deixou um rastro de destruição; as ruas viraram verdadeiros rios; o barco era o único meio de transporte; as crianças são as que mais sofrem; é um drama que se repete todos os anos. Mais: num confronto entre policiais e manifestantes, o local se transformou numa verdadeira praça de guerra; se uma celebridade visita a cidade, lá estará um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas; e, obviamente, haverá um forte esquema de segurança; todos que compram ou ganham uma casa estão, sempre, realizando o sonho da casa própria; em todos os assaltos a banco, os bandidos estão fortemente armados; as armas são de uso exclusivo das Forças Armadas; se for uma submetralhadora, será de fabricação israelense; jamais “fabricada em Israel” ou, simplesmente”, “israelense”. Se houver sofrimento, o brasileiro continuará sua via crucis.”. E os leitores, também…

Ainda bem que ele parou por aí. A lista desses vícios só cresce: o bandido fugiu em desabalada carreira; a vítima morreu ao dar entrada no hospital – isso quando não chamam o hospital de “nosocômio”; o crime aconteceu na calada da noite; o cadáver foi encontrado em adiantado estado de decomposição; o estuprador dá vazão aos seus instintos. Não é só o noticiário policial que está infestado. No esporte, um time derrotado corre atrás do prejuízo; o jogador vendido para outro clube teve negociado seu atestado liberatório; em pleno jogo, o atleta contundido é atendido pelo departamento médico do clube e, às vezes, pelo facultativo; a equipe está completa para a partida, como se o reserva  não existisse.

No noticiário geral, a notícia do incêndio sempre diz que o prédio foi consumido pelas chamas; às vezes, os bombeiros tiveram de evacuar as salas (!); uma opinião divergente gera polêmica; a descrição de um desabamento invariavelmente começa dizendo que foi tudo muito rápido; os secretários despacham com o prefeito, como se o gabinete do “seo” Pagano fosse terreiro de macumba; na campanha eleitoral, os candidatos fazem corpo a corpo e disputam palmo a palmo o eleitorado, como se apalpassem cada eleitor; toda rodovia perigosa se transforma em estrada da morte; carro da polícia ou dos bombeiros é viatura; trabalhadores em greve conseguem a proeza de fazer um movimento de paralisação; um empresário sempre tem um segredo guardado a sete chaves e quando algo se repete com muita freqüência, sai que é via de regra… Chega!!!

Desculpem por nossas  pragas. Com mais leitura e menos TV, vamos melhorar.

Pregado no poste: “Você ainda agüenta ler e ouvir com certeza ?”

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