Ela enxerga longe

Ponto de vista da nossa Fabiana Bonilha, no “Diário Braille” de abril:

“Ao acordar, lembrou-se de que teria um dia cheio. Tomou café e fez sua oração matinal, como de costume, já que era muito religioso. Então, abriu a Bíblia e leu algum texto que o ajudasse a refletir. Terminada a oração, deu uma lida no jornal, para se inteirar dos acontecimentos atuais. E assim, folheou os principais jornais de sua cidade e de seu estado.

Depois, lembrou-se de olhar em sua caixa de correio se não havia novas correspondências. E… surpresa! Um amigo, de quem gosta muito, e que mora muito longe, havia mandado notícias. Então, tratou logo de escrever uma resposta ao amigo.

Iniciou, por fim, seu dia de trabalho. Era sábado, mas como não terminara todos os afazeres na empresa, levou serviço para casa. Naquele dia, especialmente, precisava ler um grande volume de material em Inglês. E como Inglês não é muito a sua ‘praia’, teve de recorrer várias vezes ao dicionário.

Passado um longo tempo, resolveu descansar. Antes de levantar-se, porém, desligou seu computador, que já estava ligado havia muitas horas. Sim, porque todas as atividades que ele tinha feito até aquele momento haviam sido realizadas pela Internet. E ele é cego.

De outro modo, talvez não pudesse fazer nada daquilo. Dicionários, Bíblia e jornais diários integralmente transcritos para Braille não existem e são quase inviáveis. Além disso, seu amigo (que é vidente) não teria se comunicado com ele tão facilmente, não fosse o recurso do e-mail.

Quando falo ou escrevo sobre tecnologia, tomo muito cuidado para não ser tendenciosa, porque fico maravilhada com todas as formas de ajuda que os avanços tecnológicos nos proporcionaram e proporcionam.

Segundo matéria da revista Veja de 4.3.04, na época em que surgiu a Internet, muitos especialistas começaram a dizer que, provavelmente, os usuários constantes da rede mundial teriam uma tendência a ser alienados, sedentários e habitar um mundo irreal ou virtual.

Mas as pesquisas, dez anos depois, mostram resultados surpreendentemente opostos. Pelo estudo, os internautas, por conseguirem otimizar suas atividades e gastar menos tempo com deslocamentos, possuem mais espaço na agenda para cuidar de sua saúde e para, inclusive, fazer atividades físicas. Além disso, por ter maior acesso à informação, são capazes de encontrar mais recursos que lhes tragam melhor qualidade de vida.

Evidentemente, a Internet tem seu lado nocivo, conforme o uso que se faz de seus recursos. Gostaria de ressaltar que se a Internet traz benefícios para todos, eles são redobrados no caso dos deficientes visuais.

Por isso, a inclusão digital de todos os cegos é uma medida urgente, o que significa permitir a eles o pleno acesso para toda a tecnologia já existente.

Só assim aquilo que antes parecia inviável, com o auxílio dessas ferramentas, poderá virar rotina.”

Pregado no poste: “A Fabiana é cega. E daí?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *