Edifício Carolina Prado, ap. 43

Vizinhos da esquerda: um terreno baldio e um palacete. Seria da família Purchio? Depois, abrigou o restaurante Bethânia. Era lindo aquela palácio: cor-de-rosa. (Cor-de-rosa tem hífen, dona Célia? Desculpe incomodá-la, mas entre a senhora e o dicionário, confio na mestra.). Um jardim imenso até chegar à construção principal – caminho ladeado de rosas, margaridas, antúrios, begônias, hortênsias. Quando novembro chegava, era tudo lilás pelas flores de finados. Depois…. será que foi pro chão? A cidade já está na lona — logo, vai a nocaute.
Vizinhos da direita, dois marcos da boêmia destas campinas. O Bar Copacabana ainda está lá? O “Copa” vendia iogurte em garrafinhas de vidro com tampinha de alumínio, imagine! De tanto ver meu amigo Geraldo Sussuline tomar iogurte com sal, peguei a mania e não larguei até hoje. Uma delícia – parece queijo fresco líquido. Todo mundo acha horrível. Você também, né?
Pouco mais adiante, atravessando a Benjamim Constant, a Boate El Cairo e o Cataldo Bove ao piano. Cruzando o largo, na esquina com a Rua Sacramento, o pensionato de moças bonitas: a fotógrafa Teresa Flora, a artista plástica Sônia Coutinho, a editora Charlotte Seddigh e a atriz e autora Leilah Assunção viveram ali nos tempos em que a Puccamp ainda não era pontifícia, apenas a grande paróquia do monsenhor Salim. Na frente do pensionato, a loja de máquinas de escrever do ‘seo’ Otranto, patrono de uma família que deu dois grandes jornalistas para Campinas: o Gilberto Otranto, repórter-volante da Rádio Educadora, e o nosso Renato Otranto, grande cabeça do jornalismo esportivo pátrio.
Nas vizinhanças, o ponto de táxi do “Zé 51”; a Farmácia do Carmo; o ponto do bonde “4”, que partia para o Taquaral; o Curso Adolfo Lutz; o primeiro estúdio a fazer foto em cinco minutos e a estátua do César Bierrenbach, imortalizado, embora tenha se matado de amor não correspondido pela filha do Barão do Rio Branco (na época, deve ter rendido uma fofoca danada!). Contei, dona Célia… Anos antes, o Solano Lopez se apaixonara pela princesa Isabel, o conde d’Eu ficou uma arara, o sogro d. Pedro II declarou a Guerra do Paraguai, porque o Solano não quis se matar, como o Bierrenbach, e esta crônica está virando o samba do crioulo doido. Assunto puxa assunto e a gente entra em devaneio – ou “viaja na maionese”, como dizem os motoristas do McDonald’s (é assim que se escreve isso?).
Voltando ao assunto, os relógios das duas torres da Matriz Velha (igreja do Carmo) regiam o tempo e a vida daquele pedaço de Campinas. Eles “davam” as horas com dois minutos de diferença, um confirmando o outro. Ainda é assim, padre Geraldo? No tempo do monsenhor Lázaro Mütchele, era. Por quê?
Estou me lembrando de tudo isso por causa da reportagem da Suzamara Santos, no Correio Popular Revista, com o ‘seo’ Joaquim Amaral, fiel escudeiro do fotógrafo Austero Penteado, marido, justamente, de dona Carolina Prado, digna senhora de Campinas, que dá nome ao maior edifício daquela primeira quadra da Barão de Jaguara, exatamente entre o palacete do Bethânia e o Bar Copacabana.
Vivia por ali, na infância. “Zezé de 32” morava no apartamento 43 daquele prédio. Passava horas na janela vendo a cidade se mexer, lá embaixo. Será que ainda existe esse lado bonito de Campinas? Será que ainda se vende iogurte de garrafinha no Copacabana? Cadê o piano do Cataldo? E as belezas do pensionato, o táxi do Zé, os relógios da Matriz… Será que ainda existe o apartamento 43?

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