E todos pagaram o pacto

 

O comandante daquele Boeing que se espatifou na Amazônia vai levar para o outro lado da vida muito mais do que ele e seu co-piloto contaram para o Roberto Cabrini na TV, domingo passado. Há algo além da prepotência na causa daquela tragédia, que não se consegue definir.
Quando ele hesitou em dizer de que lado nasce o sol, ao se voar do Sul para o Norte, deu um frio na espinha. Lembrei-me de um velho “lobo do ar”, da extinta Pan American, que me disse, certa vez: “Esses pilotos de hoje só conhecem números, reloginhos e computadores. São incapazes de distinguir a lua do sol. Meu filho já é comandante de Boeing, mas em avião que ele comanda, não viajo de jeito nenhum. Uma vez, perguntei a ele como se faz, diante de uma pane, para saber se o avião está no Hemisfério Norte ou no Hemisfério Sul. Ele respondeu que sem os instrumentos, é incapaz de saber. E é tão simples: basta abrir a torneira da pia do banheiro e ver o sentido da água escorrendo pelo ralo…”.
Esta é uma história de personagens sem nomes, porque apesar das evidências, nunca foi possível provar nada. Aconteceu bem longe daqui. De madrugada, um jato bateu no morro de uma serra. Mais de 80 mortos, entre passageiros e tripulantes — todos. Uma emissora de TV teve a ousadia de exibir os últimos gritos de comandante e co-piloto, registrados na caixa-preta. Aí, a história começou a mostrar sua cara.
O comandante estava endividado. Separado da mulher, viajava com a amante a bordo. Não era a primeira vez em que voavam juntos. No departamento de pessoal da empresa, sua ficha funcional mostrava sinais recentes de desvio psíquico e a recomendação da psicóloga para que ele fosse, temporariamente, retirado da escala de serviços. Tudo ignorado.
O marido da amante, coronel reformado do Exército, andava no encalço dos dois. Certa vez, ele teve de fugir do avião, após um pouso no meio da viagem, porque colegas o informaram da presença do marido traído no aeroporto. Saiu correndo pela pista, à noite, tropeçou numa mureta e quebrou o pé. Mas escapou de levar um tiro.
As dificuldades financeiras e emocionais se agravavam. Aquele comandante perdeu o crédito no banco. O salário estava bloqueado para pagar dívidas e a pensão alimentícia da esposa. O destino das pessoas que transportava estava nas mãos de um desesperado. A empresa sabia de tudo, mesmo assim, o escalava para viagens, sem se incomodar com os passageiros, que não sabiam do risco que corriam. Aliás, pouca gente, mesmo na empresa, tinha conhecimento daquela situação.
Só a irmã da amante sabia de tudo. Contou que o casal fizera um “pacto de morte”, caso não conseguisse levar a aventura até o fim. Naquela noite, depois da última escala, eles partiram para a viagem definitiva. Decidiram selar o “pacto” em silêncio, levando com eles a vida de mais de 80 pessoas. O avião não bateu contra os morros. Não houve falha mecânica. Foi premeditado, mesmo. De novo. Foi suicídio.
No aeroporto que não serviu de último pouso, um coronel da reserva do Exército tomou um cafezinho e foi embora para casa.

 

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