É para trás que se anda pra frente?

Esse devia ser o lema da tecnologia de certos serviços públicos no Brasil. Certos, não. Todos errados. Era uma maravilha, lembra? A gente discava 01, a telefonista, em pessoa, educadíssima, nos chamava de “interurbano” e ia logo dizendo: “Às suas ordens.” Era só pedir a ligação e ela respondia: “São Paulo está com três horas de espera.” O serviço era uma porcaria, mas a gente xingava e alguém ouvia – e nunca respondia. Hoje, nem xingar adianta: ninguém ouve.

Elas trabalhavam naquele predião da José Paulino, se me lembro, esquina de Benjamin Constant, quase General Osório. Num passado não muito distante, ali funcionava uma “casa de tolerância”. Dá para tolerar um nome desses? Não existia nenhuma modernagem: DDD, DDI, hora certa, previsão do tempo, data da TPM, nada. Mas quando terminava uma ligação e quisesse saber o preço, para pagar quem emprestou o telefone (linha era uma raridade), bastava discar 02 e pedir “ligar taxa”. Em um minuto, vinha o valor. O zero-zero era para informações “de números que não constam da lista” e zero-três, consertos. Nada se conseguia sem passar por elas.

Só parentes sabiam que eram telefonistas. Nem os vizinhos. Tive uma tia telefonista e fui saber depois de ela se aposentar. E uma vizinha, porque apareceu na festa de despedida da minha tia. Uma vez, fiquei horas na esquina do predião e, juro por Deus, não vi sair mulher alguma. Em toda a vida, só conheci essas duas telefonistas. Mas falava com muitas, sem saber quem. Imagine que o texto da Constituição de 1967 foi transmitido por telefone da sucursal do ‘Estadão’, em Brasília, para a sede, em São Paulo. Quatro aparelhos ficavam 24 horas por dia ligados à cidade mais suja do Brasil. Até que veio o DDD.

Quando a gente viajava pra bem longe, as fotografias também eram transmitidas por telefone. Duro era convencer a telefonista do lugarejo dessa proeza:

— Quando completar a ligação, por misericórdia, a senhora não entre na linha para saber se estou falando, porque eu não estarei. No silêncio e no chiado, estará sendo transmitida uma fotografia!

— O senhor está me gozando?

— Então, venha aqui ao meu quarto no hotel pra ver…

— Seu indecente! Atrevido! Como o senhor me convida para ir ao seu quarto no hotel!?

— Então, traga o delegado e os dois ‘praças’ para ver a novidade, também. Aproveite, chame sua mãe, seu marido, os filhos… Traga um bolinho… Guaraná…

Foi o que aconteceu certa tarde em Presidente Epitácio, barranca do Paranazão. Até o Vicão, dono do carrinho de cachorro-quente, aproveitou para faturar.

(Naquele tempo, essas heroínas eram proibidas de dar o nome. Qualquer dúvida, vinha a “encarregada”, que também não se apresentava. Mistério… Agatha Christie não teria pensado em elenco melhor.)

E se as telefonistas tivessem de fazer as vezes da Internet? “

“Bom dia, minha senhora; por favor, leia o ‘Correio Popular’ de hoje pra mim. Descreva as fotos. Dite as palavras cruzadas, se não, aquela santa que mora aqui em casa trucida nóis dois! Agora, mande uma mensagem para minhas mestras Célia Farjalat, Quinita e Zilda; dê este recado para o Marcelo Pereira e esta sugestão de pauta para a repórter Teresa Costa – Ah, ela já sabe? De fato, ela sempre já sabe… Agora, por favor, a Eliane, na Agência Anhangüera… Já sei, ela está ao telefone. Ela nasceu assim. Antes de falar ‘mamãe’, ela falou ‘alô’. Essa gargalhada é do Rogério Verzignasse. Aproveite que ele não está tomando café. Orelhão? Não, minha senhora, esse é o foninho de ouvido do Renato Otranto…”

Esta crônica, mesmo, quase teve de ser ditada por telefone. Não havia meio de a Internet me conectar com o ‘Correio’. Não vou dizer se foi a Directnet, Speedy ou outra que o raio as parta. Porque se eu denunciar uma, as outras vão ligar aqui oferecendo vantagem. Como já fui vítima de uma e agora estou sendo da outra…

Pregado no poste: “Brasil, ame-o ou delete-o”

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