É fogo no padre!

Todo mundo gostava de jogar futebol contra eles, porque eles não podiam falar palavrões nem dar botinadas. Eram os alunos do campineríssimo Externato São João, que além de formar só gente boa, tem muita história para contar. Vamos deixar esta crônica para o Ademir Carlos Spis, que estudou lá:

“Fiz o primário no querido Externato São João, de 1953 a 1956. Lembro-me de alguns colegas: Fernando Pantaleão, Carlos Moreira, Beto Falsetti, os irmãos paraguaios Célio e Celso (bons de bola, mas briguentos como ninguém), Odair e Helio Bussolini, Caneta, Guilherme Trovão, Carlão Palhaçada, Pinochio, Zé Bocão, Rilei, Pinão — toda turma dos ex-alunos de Dom Bosco, comandados pelo padre Ismael. O time era imbativel, treinado pelo saudoso Gilberto Doná. Não tinha nem para a Ponte nem para o Bugre.

Mais alunos daquele tempo: Valter Falsetti, Armando de Almeida (goleiro do Dom Bosco), Jura Falsetti, Valter Con, Jorginho (vizinho do colégio), Atílio de Almeida, Lecir Antônio da Silva, Antônio de Almeida, José Arno Tossini, Hélio Tossini, José Maria dos Santos, Alvimar do Carmo Teixeira, Odair Querido… Muitos são figuras conhecidas da Velha Campinas: Hélio Ortiz, Helio Louco, José Bertazolli (o folclórico Zé do Pito), Peri Chaib (grande Peri do Gazeta), Vanderley Doná (repórter policial do Diário do Povo), irmão de Gilberto Doná, José Eduardo Straciollano (o Zé Louco, que me ajudou nestas lembranças), Sid Rodrigues (dono da Oriental Jóias e Relógios), seu irmão Claudio Rodrigues, doutor Claudio Cabeção…

Nunca me esqueci do meu primeiro professor, Gilberto Guerra Garcia.

Dos nossos vizinhos da escola, lembro-me do Armando Zanolini. Ele morava na José Paulino, em frente ao portão, seus filhos também estudaram no Externato e tiveram, até há pouco tempo, a famosa loja de decoração Zanolini, na esquina da Duque de Caxias.  Outro vizinho foi Pascoal Piva, irmão de minhã avó. Além de grande dançarino, era chaveiro e especialista em abrir cofres. Era o chaveiro oficial da polícia para abrir os cofres suspeitos.

Nosso diretor era o padre polonês Rafael – de sobrenome complicado, e o secretário, o padre Eduardo. Os professores mais lembrados: Luiz Bitencourt Cabral, Gilberto Guerra Garcia, Carrijo e o famoso padre Isamel.

O Externato São João tinha um cantina, aliás uma micro-cantina que não vendia sanduíches nem salgadinhos — o que tinha era doce: de batata roxa, de banana, maria-mole, pé-de-moleque, paçoquinha, balas Toffee, quase todos feitos na Doces Campineira, que ficava na Rua dos Alecrins, lá na Vila Estanislau. O dinheiro era curto, só dava para um docinho de 500 réis.

Para incentivar a freqüência às missas e rezas, os padres ofereciam bônus a cada participante. O aluno participava das atividades religiosas e colecionava os bônus. Ao final do ano, promoviam uma feira com prendas arrecadadas no comércio, e os alunos trocavam bônus por presentes (bolas, chuteiras, camisetas, etc.). Daí que assistir a uma missa valia 10 pontos; a uma reza, dois; participar de procissão, 20.

No dia de São João, 24 de junho, todo o externato desfilava, exibindo seu uniforme de gala azul e branco, de calças compridas. Saía pelo portão da General Câmara, descia a José Paulino até Campos Salles, subia a Francisco Glicério e parava no Largo da Catedral, para colocar flores e homenagear dom Nery, primeiro bispo de nossa cidade, fundador, dentre outros colégios, do nosso externato, em 1929.

O saudoso Armando Zanolini nos deixou muitas lembranças alegres. Logo que sua loja foi inaugurada, ele falou para os filhos que estava com vontade de ir até a Rússia para tirar o modelo da ‘Cortina de Ferro’… Numa visita à cidade de Santos, ele inventou de passear de bonde pela orla. Lá, em cada parada, os motorneiros diziam o nome do lugar, pois havia muito turista e, assim, facilitavam a localização. O homem gritava ‘Gonzaga!’, e descia um monte de gente; ‘José Menino!’, mais outra turma. Então, o Armandão, para não perder tempo, pediu para um colega avisar quando o motorneiro chamasse ‘Armando Zanolini’, que era a vez dele descer…

Mas esqueci-me de um ex-aluno que, para mim, foi o mais importante.
Carlos Spis, o ‘Carlito Cachorro’, encanador, eletricista, goleiro profissional e titular do Mogiana — disputou a Segunda Divisão. Mas acabou expulso do externato — ele e um amigo, o Japonês, colocaram fogo na batina de um padre de uma certa idade, que estava dormindo. Aí, não teve jeito.

Ah! O ‘Carlito Cachorro’ era meu querido pai. Carlitão, onde você estiver, eu te amo! Foi uma grande injustiça sua expulsão.

Pregado no poste: “Campinas era feliz e os campineiros sabiam”

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