E depois da festa?

Uma grande oportunidade para a escola pública paulista começar a sair da humilhação vai acontecer no dia 21 de novembro, no ginásio da Unicamp. Os 125 anos do Colégio Estadual “Culto à Ciência”, talvez a mais antiga escola pública de São Paulo em atividade, podem marcar, até, uma virada na Educação. Além dos preparativos para celebrar a data, que tal aproveitar a chance e lançar tempos de mudança? Deixar essa iniciativa para os políticos é manter o ensino público morto. Juventude mal formada é um prato cheio para a apetite dessa gente (?). A eles, claro, não interessa uma nação instruída. Afinal, quem não “sabe” não “pode” e no dicionário deles, saber não rima com “poder”.

Mudar currículos, melhorar seu conteúdo, estabelecer critérios para preparar e selecionar melhor os professores e adequar o ensino à evolução do país e à realidade do mundo são tarefas muito importantes para serem entregues à sanha de quem deixa o Brasil desse jeito.

Em primeiro lugar, é inconcebível que um professor seja tão desestimulado a ponto de ganhar menos do povo (que trabalha para pagar a educação dos filhos) do que vereadores, deputados, senadores e assemelhados, que, ao contrário dos mestres… Pagamento de professores é investimento; de políticos, desperdício.

Em segundo lugar, também é inconcebível que num dos países de sociedade mais desigual, de diferenças de oportunidades tão brutais, se estude tão pouco. Não faz muito tempo — pouco antes da ditadura militar — as exigências curriculares eram muito maiores. No “Culto à Ciência”, mesmo, tínhamos aulas de segunda a sábado. No período matutino, das oito ao meio-dia, e no vespertino, de meio-dia e meia às quatro e meia. No colegial (segundo grau de hoje), das sete ao meio dia e, à tarde, até às cinco e meia. O professor Stucchi há de se lembrar que dava aulas de educação física em plenas tardes de sábado. E ninguém morreu por isso.

Nenhum professor se recusa a trabalhar mais e melhor. Até aos domingos, se for preciso. Mas é preciso que lhe dêem chance de aperfeiçoamento e lhe paguem o que ele merece. E ninguém merece ganhar mais do que eles. Afinal, é a eles que confiamos nossos filhos. Depois dos pais, são a pessoa mais importante para qualquer criança. Assim mesmo, era muito pouco o tempo dedicado ao estudo. Antes pudéssemos passar o dia todo na escola.

No “Culto à Ciência”, que até há trinta anos era uma escola diferenciada, informalmente, tínhamos esse privilégio. Quem não tinha a mãe em casa para ajudar nas lições podia contar com a ajuda de nossas maravilhosas bibliotecárias, entre elas a insuperável Otávia Maia. Quer melhor oportunidade do que fazer a tarefa de casa na biblioteca da escola com a ajuda de uma mulher estupenda como ela? Ela sabia tudo.

A quantidade de lições que um aluno leva hoje para fazer em casa também é muito pequena, pouco abrangente e superficial. Dona Zilda Rubinski (um beijo, querida!), pediu, na primeira aula de Latim (primeiro ano do ginásio), que estudássemos a fundo o pequeno dicionário que acompanhava o livro, “Masa Primus”. Tenho ele até hoje. Foi por ele (e com ela) que aprendi gramática e ortografia. Colegas daquela época que fizeram Medicina reconhecem espantados: “Incrível! Todas as raízes da terminologia médica estão no velho dicionário do ‘Masa’ da dona Zilda e no livrinho de grego da dona Maria de Lourdes Ramos. Por isso, foi moleza passar em Biologia no vestibular.”.

Pregado no poste: “Quem estuda sabe mais, quem ensina vale mais”.

 

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