Durma em casa

Logo, logo, jovens começam a percorrer os palacetes, mansões, casas, apartamentos, bangalôs, cortiços, barracos, malocas, carros abandonados, e buracos de pontes e viadutos de Campinas. A moçada do IBGE vai contar a população – de olhos neles, alguns candidatos a uma boquinha na Câmara, loucos para que a cidade tenha mais de um milhão de habitantes e aumente o número vagas para interesseiros, digo, interessados em servir o povo que vai pagar por tudo o que eles fazem ou deixam de fazer. É a democracia – o pior regime político, mas não existe melhor.

Fiz o recenseamento de 1970 e foi uma farra. Campinas era metade de hoje. Primeira pergunta do questionário: “Quem dormiu nesta casa na noite de 31 de agosto para 1º de setembro?”. Passado o constrangimento, muita gente respondeu com naturalidade, mas ouvi alguns desaforos: “Por que o senhor quer saber? Minha mulher viajou com as crianças, mas ela mora aqui!”. Tinha de explicar: “Quem quer saber é o governo, para conhecer a população da cidade e não quem andou prevaricando naquela noite.”

Alguns justificavam: “Meu marido é viajante e meu primo de Americana…”. “Sou casado, mas minha mulher não mora comigo, é ela quem me sustenta. Portanto, esse negócio de renda mensal tem de ser com ela ou com o amigo dela.”. “Dormi na maternidade; o Júnior nasceu lá, naquela noite. Ele conta ou não conta?”. “Não dormiu ninguém. Moro sozinha aqui, durante o dia, e à noite, durmo no Jardim Itatinga. Como é que faz?”. “Meu pai mora aqui, mas chegou de madrugada. O trem que vinha de Barretos atrasou. Você conta ele aqui ou contam lá no trem?”.

Não havia favelas, poucos barracos aqui e ali. Nem sem-teto, mas muito sem-vergonha – um deles não queria incluir o filho adotivo na família. Enquanto a mulher foi passar um café, cochichou: “Ele é meu com a empregada, mas ninguém sabe! Quebra essa.”. Não quebrei. Duvido que se chegue a um número, ainda que próximo, de campineiros. Por enquanto, os computadores só sabem contar, mas (ainda) não sabem descobrir fofocas. Já pensou?

Pregado no poste: “A CPI do Narcotráfico acabou?”

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