Diário de Lisboa

Coisas de quando a velha guarda era jovem. Assim conta José Carlos Valente Sanches:

“Guigão e Ricardo Rivero que o digam, pois tocavam em dupla e era uma maravilha. Um show inesquecível. Eu ia muito a casa deles, quando moravam em cima do Banco Bandeirantes, na Francisco Glicério. O Zé, irmão mais novo deles, sentava no chão e tocava bongô. Aquela família é uma maravilha para a música. Uma vez, há muitos anos, estive em Jaboticabal, numa formatura do sobrinho mais velho da minha Cris. Virei para ela e disse: ‘Vou até o palco, pois acho que quem está tocando aqui é a Banda do Brejo, de Campinas, que pertence ao Zé, irmão da Dulce.’. Ela me disse: ‘Você deve estar maluco…’ Respondi: ‘Tenho certeza de que é o Zé tocando teclado.’. Fui até à frente do palco e fiquei olhando. De repente, ele parou de tocar e saiu correndo para pular do palco e me abraçar aos gritos: ‘Sanchão!, é você!?’ Não preciso dizer que a banda continuou o baile sem ele.”

Eu quis saber o ano da formatura. Sanches foi atrás e ligou: “Acabo de receber um telefonema do dito Zé Rivero, dizendo que se a memória dele não falhar, acha que se formou em 1990, em Jaboticabal. Dá prá acreditar que um cara na idade dele diz que precisa olhar o diploma para ter certeza?”.

Caro Sanches, isso se chama PVC. Não é tipo de plástico nem mal vascular-cerebral algum; só a porcaria da velhice chegando…

Enquanto isso, Miguel Nucci e sua Mércia Lídia, daquela mesma jovem guarda, mandam suas primeiras impressões de uma vigem a Portugal. Ainda estão lá.

“Meus amigos e amigas! Estamos em Lisboa! O que vamos narrar não lemos, não nos contaram. Vivemos o ‘facto’. Tomamos o eléctrico 28 (vulgo bonde) para irmos ao castelo de São Jorge. Demos dez euros ao cobrador e ele ficou bravo, pois era uma nota de valor alto e ele não tinha troco. Como não tínhamos outra nota nem moedas menores, criou-se um impasse durante um interminável minuto. Eis que de repente o cobrador diz: ‘Solucionei o problema! Dê-me sua nota de dez euros e lhe dou duas notas de cinco euros! Pronto! Agora, o senhor me dá uma nota de cinco euros. Ora pois! Agora eu tenho troco!!!”

No dia seguinte…

“Já estamos no Porto. Aliás, falando em ‘eléctricos’, os daqui só provocam boas histórias. No passeio que fizemos hoje, pegamos outra linha na direção errada ao nosso destino. Quase terminando a viagem, um senhor nos informou que o lugar pretendido ficava no outro sentido. Para nós, tudo bem, porque estávamos passeando. No ponto final, avisamos ao condutor que retornaríamos. O bonde, tipo ‘Camarão’, como os de Santos e São Paulo, é todo fechado, com uma porta de entrada e outra de saída. Você acredita que ele nos fez descer por uma e entrar por outra para reiniciarmos a viagem? E não havia catraca, ninguém para controlar o fluxo, nem outro passageiro, nada! Mas tivemos que fazê-lo.

Nucci e Mércia, à beira do Douro.”.

Ou de um ataque de nervos?

Quanto a olhar o diploma para se lembrar do ano da formatura; ter de sair e entrar no bonde vazio e sem catraca ou trocar dez por duas de cinco para receber o troco é um consolo. Hoje, depois de viver há quase quinze anos no mesmo apartamento, entrei no elevador, vi minha imagem refletida no espelho do dito cujo e a cumprimentei. Só me dei conta, quando vi que o cara ali refletido era eu, posto que usava a mesma camiseta, bermudas, óculos e boné com que eu havia saído… E falam dos portugueses!

Pregado no poste: “Burros somos nós, que sempre votamos nisso que está aí”

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