Devagar se vai longe

Quando o homem inventou a roda, o primeiro produto foi o carrinho de mão, depois, a carroça, até descobrir que era mais chique viajar de charrete. Daí para o carroção, a diligência e a carruagem, foi um pulo. Um surgia da decadência e popularização do outro, ditadas pelo aumento do número de passageiros.

Em 1896, Henry Ford pôs o primeiro carro motorizado a rodar e nasceu a geração do automóvel – 70% dos pedidos de casamento nos EUA são feitos dentro de um carro. E o carro serviu de alcova favorita até o surgimento dos motéis, que vieram da (mot)orização do homem. Do carro individual aos coletivos, aos aviões e aos helicópteros, aviões individuais ou “de rosca”. Tudo degenera quando os governos se põem a reger seu uso, sua rotina. A próxima vítima será o ônibus espacial.

O ônibus é um festival de humanidades. Há horas em que ele cheira a bacon — aroma além do cecê. Subindo Brigadeiro Luís Antônio, chuva, marcha-lenta, pacote de gente embaixo do viaduto da Treze de Maio, porta da frente aberta para ninguém sufocar, da calçada uma senhora, molhada como uma pinta, pergunta ao motorista:

— Que ônibus é esse?

Ele sorri, fingindo pose:

— Mercedes Benz!

Quando a campainha dos ônibus da CCTC fazia “trrriiim”, na linha da Vila Marieta, um garoto puxou a cordinha e… silêncio; puxou a outra… silêncio. Chegou à nuca do motorista e disparou: “Trrriiim!!!”.

Embarquei no Vale do Anhangabaú com um grupo de colegas, bem na hora do rush da tarde, rumo à Cantareira, casa de uma amiga. No fundão, inventamos de seguir cantando o Hino à Bandeira. Lá na frente, outro grupo, desconhecido da gente, inventou de cantar o Hino Nacional. A coisa engrenou, virou festa. Tempos de sucesso do pilantra Wilson Simonal, que fazia o Maracanã inteiro cantar. Nem Frank Sinatra! O cobrador sentou na mesinha e regia: “É no gogó, neném! Sim sou negro de cor / Meu irmão de minha cor / O que te peço é luta sim, / luta mais / Que a luta está no fim / Cada negro que for / Mais um negro virá…”

Lá pelas tantas, o motorista parou, desligou o motor e exclamou: “Linda viagem! A melhor que eu já fiz. Pela primeira vez, vim do Anhangabaú até aqui e ninguém deu sinal para descer! Estamos no ponto final!”

Pregado no poste: “Político não sabe o que é viajar com o joelho no pescoço”

 

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