Descrição à vista de uma gravura

No antigo “segundo ano do grupo escolar”, não havia slides, aulas virtuais, retroprojetores e outras modernagens. Dona Lilian Nopper, mestra da Escola Rio Branco, abria sobre um cavalete uma daquelas gravuras do tempo em que o Guarani era campeão breasileiro e mandava a gente descrever o que via. Crianças brincando com arcos no parque, uma rua de comércio intenso, gente a cultivar uma horta, fábrica com chaminé fumegando. Inesquecíveis.

Voltei a esse tempo quando o Geraldo Trinca me mandou uma coleção de fotos de Campinas, todas pré-anos 60s, maravilhosas. Era uma cidade, só gente pelas ruas e avenidas, tranqüila, limpa, luminosa, orgulhosa, nem aí para o mundo – como sempre, invejada.

Na primeira, o relógio da Catedral marca 15 para as 5 da tarde. Pelo movimento da Treze de Maio, um dia de semana. Não se via um homem sem paletó e a maioria de terno claro. A mulher de lenço branco na cabeça e um bebê no colo entra no Bonde 8, do Bonfim – aposto que ajudada pelo condutor mais querido do mundo, o seo Vignatti de todos nós. Na mesma calçada, as fachadas da Anauate Modas, Piccoloto, Casa Lord, Drogasil (e sua Berkel – já trepou na Berkel?) e os engraxates do largo, tudo à sombra do Alecrim.

Nossa! A igreja do Rosário e uma fila de Citröen, Pacakard, Studbaker, Cônsul, De Soto, Skoda, Morris, Prefect (será que era o do professor Amaury Fratini?). Mais ao fundo, o hotel Términus: Cauby, Emilinha, Chico Viola ou Cármen Miranda na janela? Na frente da igreja, o antigo abrigo de passageiros de bondes e ônibus – só que o índio que media força com os valentões não aparece. Um ônibus da Viação Lira entra na Campos Salles.

A Treze de Maio de novo. Que lindo o nosso teatro! A Lojas Americanas (ainda sem a entrada pela Ernesto Kuhlmann), as Pernambucanas… Uma placa proíbe estacionamento, só que em vez do “E” de hoje, era um “P”, lembra? E os trilhos dos bondes “9”, do Botafogo (que vinha do Colégio Culto à Ciência) e o “5”, da Estação. Roubaram aqueles trilhos. Quem foi, mesmo? Alguém que nunca foi campineiro, mas sempre foi ladrão, talvez. Um garoto está sentado na calçada do teatro olhando para os trilhos, de costa para o restaurante Marreco – despendindo-se dos trilhos? Que homem feito é esse menino, agora?

No Largo da Estação uma construção belíssima, enorme, de dois andares, com uma placa na porta: “F. Patrone Especialista em Pianos de Cauda”. No primeiro andar (mas que prédio bonito, puxa vida!), uma placa anuncia “Clínica de Olhos” e na outra, será que está escrito “Dr. Luiz de Tella”? Não dá para ler direito. No térreo, bem depois dessa foto, havia uma casa de consertar guarda-chuvas e a loja “A feira dos presentes”. Era domingo ou feriado, porque as portas estavam fechadas. Atrás, ainda aparece, lá no alto, um pedacinho daquele anúncio imenso do Roque de Marco. Quem foi Roque de Marco? Será que pai ou avô do Roberto de Marco, da casa de adubos Agrocam? E árvores, quantas árvores!

O Largo da Estação todo era bonito. Ponto de carroças e charretes de um lado da entrada (com o carroceiro Dito Colarinho, claro) e de táxis do outro. E a segunda parada de embarque e primeira de desembarque dos ônibus do Expresso Brasileiro, do meu querido amigo Heitor Beltrão, e da Viação Cometa, do não menos querido César Contesotto. Campinas era um sonho para quem chegava – hoje, o sonho da cidade é seu passado. Deus do céu, esta noite eu não durmo. Amanhã eu conto quem foi a Berkel e a gente continua essa descrição à vista de uma gravura. Obrigado Regina, obrigado Trinca.

Pregado no poste: “Puts! Como era bom viver em Campinas!”

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