De maritacas, pombas e gatos

O homem é um bicho separado para matar bichos. Técnicas sofisticadas ou simples, o negócio do homem é matar. O burro (com licença dos burros) não percebe que animais e vegetais não precisam do homem – intruso na Terra é ele. Mas é assim mesmo, do pobre ao rico, do político ao trabalhador, do inteligente ao esperto, do mocinho ao bandido, sempre há alguém com uma receita infalível.

Morei numa casa, onde um galo voava para a árvore ao lado da minha janela. Um amigo logo sugeriu jogar um anzol bem pequeno enfiado num grão de milho: “O galo não morre, mas também não canta mais…”. Um cientista da Unicamp tinha um sítio aí perto de Campinas. Ele criava piranhas num tanque, bem na varanda da casa. Sua diversão era jogar gatos vivos no tanque só para ver o esqueleto depois do ataque. Sem falar dos domadores, que trocavam ingressos do circo por gatos para alimentar as feras. Outro cientista, que morava num apartamento, não suportando o latido dos cachorros que vigiavam um estacionamento vizinho, comprou um apito de caça – ultra-sônico, só o cachorro ouve. Ouve e, coitado, uiva, fica de joelhos de tanta dor no ouvido; parece implorar o fim daquele martírio.

Sobre os pombos, acho que aquela cientista da Embrapa está certa. Não é o alimento que os une em bandos, mas o abrigo que as cidades oferecem: calor e proteção, porque comida eles acham em qualquer lugar. Na Amazônia, habitam uma refinaria de petróleo em vez da floresta, na outra margem do rio. É só passar um pouco de cera de assoalho nos vãos, que eles se vão.

E as maritacas? Atenção dona Izalene, não me vá dar a mesma ordem do seu colega prefeito de Jaboticabal, em 1928, para acabar com as bichinhas que engoliam toda a produção de milho dos sítios e fazendas de lá. Os ‘ecos’, chatos ou não, teriam chiliques com a senhora, companheira prefeita: “Cada funcionário da Prefeitura é obrigado a entregar diariamente dez cabeças de aves de bico redondo, sendo papagaios, maritacas ou inhandaias, ao fiscal, para lançamento em livro destinado a esse fim, sob pena de multa de dez mil réis a aquele que não os apresentarem.”. Se a senhora quiser copiar, acrescentando pombos e gatos, era o artigo 75 do Código de Posturas Municipais de Jaboticabal. Mas não bote o nome de “Lei Cecílio”! Se não, a senhora vai ver o que acontece…

Pregado no poste: “Já salvou um passarinho hoje, dona Izalene?”

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