De 7 a 70

Sabe a história da cobra que sumiu porque começou a comer o próprio rabo para matar a fome? A Vênus de Milo ia para o mesmo caminho, com aquela mania de roer as unhas. Na Lagoa do Taquaral, os bondes partem para o mesmo fim, o da autofagia – ali, um come o outro para não morrer. “Eram quatro e eu só vejo dois”, diria Ary Toledo, diante dos ovos que a galinha pôs.

A lagoa, que já teve 15 metros de fundura, só tem oito de ‘rasura’, tanta areia, esgoto, lixo e erosão que ela recebe. Até os sumidouros sumiram. O maior cartão postal da cidade vai virar ‘cartão bostal’ (que ninguém nos ouça — há senhoras presentes.). “Faz tempo que não morre gente lá, engolida pelos buracos negros”, conta o repórter Fábio Gallacci, que terça-feira passada prenunciou a morte da lagoa. É verdade. Antigamente, morria gente à beça na lagoa. Nem isso ela aceita mais: gente. Afinal, além dos nossos notáveis administradores, que não administram, no outro lado dessa história há os porcos e vândalos, também chamados de gente – bondade. Antigamente, acontecia a travessia a nado ali (um perigo!). Breve, veremos a façanha da pescando e travessia a pé.

Os pedalinhos, tão estragados, nem o Robinho se arrisca.

Sabe aquela caravela que existe lá? Vale a pena ler de novo: “Tragicômico. Foi construída para a festa dos 150 anos da Independência, em 1972. Um tal Vasco, dono de um restaurante no Guarujá, apareceu por aqui se dizendo descendente do Cabral. Acabou convidado pela comissão organizadora a visitar a ‘obra’. Brigou comigo. Durante a entrevista, comecei a vasculhar (sem trocadilho), a dinastia do descobridor. Certa hora, Vasco disse que Cabral tinha mulheres ancestrais que levavam, digamos, ‘vida fácil’. O gajo me viu anotando e esbravejou: ‘Se puser no jornal que ele era filho de rapariga, paro de conversar e vou-me embora.’. Foi. Pus. Ora, pois, pois!”

Sem falar que a dita cuja encalhou no dia do lançamento, madrugada de 22 de abril de 1972.

Se cada um, dos sete aos 70 anos, pagar R$ 0,50 para entrar, a lagoa fatura R$ 200 mil por ano para se manter — se ninguém desviar o dinheiro.

Pregado no poste: “Seo Hélio, tá nervoso? Vá pescar.”

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