Cuidado, Papai Noel!

É melhor não vir a Campinas este ano. Lembra-se daquele Alecrim onde o senhor amarrava o trenó? Pois, é. Mataram. E até hoje… Também, ninguém sabe ainda quem mandou matar o Toninho – o senhor fez campanha para ele, está lembrado? E o comércio da Treze de Maio, palco iluminado da sua festa maior? Destruíram. Se o senhor vier por ali, vai encontrar um bando de pernas-de-pau, com lenço na cabeça, feito tartarugas ninjas; calça de flibusteiro amarrada ao joelho; tapa-olho negro; fedendo a rum – até o rum é pirata. Se o senhor cantasse “hô, hô, hô”, eles responderiam “hum, hum, hum, uma garrafa de rum.”. Eles debocham da polícia. Quanto mais ela ataca, mais piratas aparecem. Imposto e garantia, zero. É gente que odeia Campinas e os campineiros. Não fazem negócio, só negociatas. E os trouxas compram. Mancham a classe dos camelôs.

É Papai Noel, a Treze de Maio, seu caminho preferido para chegar a Campinas nas noites de Natal, está despedaçada. A cara de Bagdá depois do Bush. (Ou a cara do Bush, tanto faz.). Vitrines das Lojas Americanas, Casa Anauate, Zogbi, Coteninga, Lord, Piccolotto, Baby ou Babi (fica logo ali), Tecidos MM (melhor tecido, menor preço), Farmácia Popular (suba que o preço desce), Casa Alfa do seo Antônio da Silva Ramos, Ceccato (era o maior), Centro dos Alumínios Bittar (nada ver com aquele seo Jacó), Drogasil e sua Berkel, A Soberana do seo Sanchez, Casa Paratodos, Casa Andrez, Casa Smanio e seu inconfundível cheiro de couro, Oficina de Bicicletas Lunardi, Calçados Clark (antes de se mudar para a Glicério), Hotel Brasil, Ezequiel e seus bonecos…

O senhor entrava pelo Largo da Estação, passava na frente da Feira dos Presentes e da Casa Tamoio, que consertava guarda-chuvas da cidade inteira, e descia batendo sino, bem à frente do bonde “5” e do “9”, com a turma do Culto à Ciência naquela algazarra. Aqui, juntinho de mim, seo Vignatti manda lembranças.

Vamos dar uma passadinha na Glicério: Casa Nascimento, Livraria Universal, Casa das Rendas, Casa Anna Kenna, Etam (primeiro na Barão, depois na esquina com Campos Salles – olá, dona Sarina! Abração na Jóia!), Vó Landa, Calçados Terra, A Exposição, Fotos Parodi e Outsubo, Constanze Creações (a “Prainha!”), Sanducha, A Elite Campineira — a que mais barato vende e melhor atende…

Agora, a Campos Salles: Casa das Vitaminas, Casa da Borracha, Churrascaria Gaúcha e o garçom Darci, Manfredini, Cristal Lotérico, Estúdio Ramos, Hotel Terminus, Viação Cometa, Expresso Brasileiro (seu Heitor Beltrão, tudo ‘bão’?), Ateliê da Mariazinha Bocaletti, Restaurante Brasília, sucursal do Estadão (olha o mestre Erbolato na janela!), Café Caruso…

E a Barão de Jaguara? Restaurantes Lo Schiavo e Barão, Éden Bar, Café Regina e Café do Povo, Padaria do Comércio, Chocolates Kopenhagen, A Seleta, Galerias Paulista e Trabulsi, o vendedor de cachorro-quente com purê de batata na frente da outra Drogasil, Sorveteria Sônia, Casa de Chá Betânia, Bazar Conceição, R. Monteiro, Casa Queiroz, Ótica Gerin, Anauate Júnior, Livaria Brasil (sua benção Oswaldo Guilherme!)…

Cansou? Então só a Conceição: A Meia Elegante Magazine, Casa dos Enfeites, Farmácia São Luís, o Correio Popular, bares Ideal e do seo Facca, Caixa Econômica Federal, Lojas Renner, A Especialista, Floricultura Campineira…

Saudade? Pois é, quase toda essa paisagem sumiu ou está escondida de vergonha, esperando passar a borrasca. Meu amigo Roberto Diogo, filho do zagueirão Diogo (Ah, o senhor também sabe de cabeça a escalação? Quero ver: São Dimas; Ferrari, Ditinho e Diogo; Valter e Eraldo; Dorival, Ilton, Cabrita, Benê e Osvaldo.). Como eu dizia, o Roberto falou que se o senhor inventar de descer por alguma chaminé ou pela Treze, será recebido a bala, tamanha a violência e a paranóia que tomam conta desta nossa gente, que já nem distingue Papai Noel de bandidos ou de piratas.

Pregado no poste: “Seus camelôs a senhora vai levar junto, não é dona Izalene?”

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