Concreto e abstrato

Existe uma cidade aqui pertinho de Ribeirão Preto, que homenageia uma árvore de fruta muito gostosa: Pitangueiras. Campinas ainda tem pintangueiras? Era árvore de se ter no quintal, com a jabuticabeira, a mangueira, o abacateiro, o mamoeiro, o limoeiro, a laranjeira… Hoje, é um perigo ter quintal em Campinas, e a molecada já pensa que pitanga é atriz da Globo; mangueira é escola de samba, e que jabuticaba, mamão, abacate, laranja e limão saem de uma fábrica direto para o balcão do supermercado.
Há muito tempo, Pintangueiras vivia uma tragédia. O prefeito, nem é bom falar o nome dele, não suportava acudir o pessoal que vinha do Nordeste para a colheita da cana. As bóias-frias grávidas ele mandava para a Santa Casa com uma proposta indecente: “Quer ter o filho aqui? A Prefeitura paga tudo, mas se você deixar fazer laqueadura.” Era proibido esterilizar as mulheres, se o parto não fosse de risco. Mas o alcaide era inflexível e desbocado: “Fazer, que é gostoso, elas fazem lá na terra delas, mas na hora de ter, que custa dinheiro, é o povo daqui que tem de pagar. Eu mando capá essa muierada toda mesmo!”
Para meu espanto, ele ainda chamou a recepcionista do gabinete e perguntou: “Diz aí pro moço: você não está capadinha?”. Para completar a reportagem, procurei o delegado de polícia. Queria saber se ele tinha conhecimento daquele crime. Parecia mancomunado: “O senhor faz uma queixa? Aí eu mando investigar qualquer dia…”. Quando cheguei à delegacia, peguei um rabicho da conversa dele com um homem que acabara de ser preso: “Vou logo avisando: a cidade não tem bombeiros. Se você e os outros bandidos puserem fogo em lençol e colchão eu me mando com o escrivão e o carcereiro e vocês morrem queimados, certo?”
Depois de muitos anos, voltei dia desses a Pitangueiras. A situação é outra. O prefeito Waldir de Felício, o Professor Diro, parece gente muito boa. Ele me contou, em tom de lamento: “Um dia, pesquisei e descobri que dos alunos da escola onde lecionava, só 10% eram nascidos aqui! Hoje, mais de 60% dos nossos 31 mil habitantes não são pitangueirenses. Tanto que o centenário da cidade, em 1992, passou e ninguém percebeu… Poucos têm raízes em Pitangueiras.”.
E eu me lembrei: com tanto comissionado de fora para ajudar dona Izalene, servidor público campineiro no Palácio dos Jequitibás deve ser adjetivo abstrato.
Pregado no poste: “Uai! Não eram crimes políticos?”

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